segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Censura não pode ficar fora da pauta

A manutenção da mordaça no Estadão decidida pelo STF não pode ficar fora da pauta da 1ª Conferência de Comunicação (Confecom), que começa hoje em Brasília.

A incrível decisão do TJ do Distrito Federal impedindo a publicação de informações da Polícia Federal sobre os negócios da família Sarney vige há 136 dias e foi confirmada pela aberrante votação no STF da última quinta-feira.

Não é fato novo nem isolado, o presidente da secular e prestigiosa ABI, Associação Brasileira de Imprensa, jornalista Maurício Azedo, repete há anos a mesma e surpreendente denúncia: o Poder Judiciário é o grande algoz da liberdade de imprensa no Brasil.

O assunto, evidentemente, não é da alçada do Executivo e nem cabe aos ministérios que participaram da preparação da Conferência questionar o Judiciário. Mas o aberrante desvio funcional e institucional do poder encarregado de proteger o Estado de Direito democrático não pode ser minimizado ou desconsiderado pelas entidades do 3º Setor há meses empenhadas na preparação da Confecom, cuja meta central é tornar equitativa e plural a circulação de informações. Sobretudo depois do rompimento das maiores entidades empresariais com os órgãos governamentais que organizaram o evento.


Jornalistas prejudicados pela censura


As bandeiras da liberdade de imprensa e de expressão não são propriedade do empresariado da comunicação. Ao contrário, os maiores prejudicados pelo cerceamento da liberdade são os profissionais da informação. Eles – e não os executivos ou acionistas – são as primeiras e maiores vítimas dos atos de arbítrio. Uma imprensa amordaçada e controlada pelos tiranetes togados não precisa de repórteres, fotógrafos ou cinegrafistas. Lutar contra a censura é uma forma direta de garantir empregos.

O objetivo primário da censura é intimidar aqueles que fizeram do ofício de informar um compromisso de vida. Daí a importância de um pronunciamento subscrito pela Confecom contra magistrados e tribunais que sob diversos pretextos e a serviço de difusos interesses tentam reviver os paradigmas vigentes durante o regime militar.


Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br / Por Alberto Dines em 14/12/2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O problema ambiental e as responsabilidades de mídia

Por Lilia Diniz em 10/12/2009


Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.

Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente.


Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?

Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).

Antes do debate ao vivo, na coluna "Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."


A informação descontextualizada


Ainda antes do debate no estúdio, em editorial [íntegra abaixo], Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.

A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.

O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.


A mudança climática já assombra o Brasil?


Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.

Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.

De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.


Na Europa, um panorama bem diferente


Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio dá resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.

No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.

Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador.

Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.


A internet como aliada


Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional.

"Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.

"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.

Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.

Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.


Estado ausente


Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.

Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.



Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br

O problema ambiental e as responsabilidades de mídia

Por Lilia Diniz em 10/12/2009


Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.

Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente.


Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?

Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).

Antes do debate ao vivo, na coluna "Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."


A informação descontextualizada


Ainda antes do debate no estúdio, em editorial [íntegra abaixo], Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.

A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.

O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.


A mudança climática já assombra o Brasil?


Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.

Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.

De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.


Na Europa, um panorama bem diferente


Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio dá resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.

No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.

Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador.

Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.


A internet como aliada


Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional.

"Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.

"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.

Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.

Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.


Estado ausente


Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.

Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.



Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Caos nas ruas, confusão nos jornais

Comentários para o programa radiofônico do OI, 9/12/2009

Mais um dia de caos em São Paulo após as chuvas fortes é a manchete inevitável dos grandes jornais paulistas e destaque no Globo.

No Globo, manchete para o aumento de preços de materiais de construção no Rio, destaque para as enchentes em São Paulo e para a conferência do clima, que começa em Copenhague.

Nos jornais paulistas, nenhuma atenção à conferência de Copenhague na primeira página. Apenas uma referência, no pé de um texto na manchete do Estado de S.Paulo: "Para estudiosos, as chuvas persistentes podem já ser resultado das mudanças climáticas".

Poucas aulas de jornalismo poderiam ser mais esclarecedoras do que a observação das edições de quarta-feira (9/12) dos jornais para se chegar à constatação de que a imprensa ainda não integrou o aquecimento global como tema transversal ao noticiário.

Apesar das evidências de que o fenômeno afeta praticamente todos os aspectos da vida comum, os jornais ainda o tratam como assunto isolado, distante do noticiário econômico, dos acontecimentos que afetam a qualidade de vida da população e das escolhas de políticas públicas.


Poder do boato


Acobertura dos debates em Copenhague ficou totalmente comprometida pelas controvérsias, alimentadas pela imprensa, em torno de um documento atribuído ao governo da Dinamarca, e que foi considerado desfavorável aos países em desenvolvimento. O documento, publicado pelo jornal britânico Guardian, provocou uma sucessão de informações desencontradas em sites noticiosos de todo o mundo.

Nas edições de papel de quarta-feira (9), fica claro que se tratava de um balão de ensaio para uma suposta negativa dos países ricos a pedidos de financiamento por parte das nações em desenvolvimento para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

O texto, sem assinaturas, circulou como se fosse um documento oficial, o que aumentou a confusão. Propõe medidas para limitar o crescimento da temperatura média do planeta ao máximo de 2 ºC em relação aos níveis do período pré-industrial, reconhece que as nações industrializadas são responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa e admite que as medidas para mitigar seus malefícios não podem ser partilhadas igualmente com os países em desenvolvimento, cuja prioridade é erradicar a pobreza.

A controvérsia, que seguia sem esclarecimento, indica que a imprensa não tem uma estratégia clara para a cobertura da conferência.
Um simples boato é capaz de desmanchar todo o planejamento da edição. E os jornais ainda não enxergam a relação direta entre o tema de Copenhague e as enchentes quase diárias nas cidades brasileiras.


***


A política do avestruz

Luiz Egypto

"Diante de uma grave emergência." Este é o título de um editorial publicado na segunda-feira (7/12), simultaneamente, por 56 jornais de 45 países a propósito da abertura da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reunida em Copenhague (Dinamarca), com término previsto para 18 de dezembro.

A iniciativa dos jornais é mais uma evidência da gravidade do problema que assola o planeta, até agora incapaz de equacionar a contento a questão energética e a emissão descontrolada de gases de efeito estufa.

"Se não nos unirmos para empreender ações decisivas", afirma o editorial, "a mudança climática causará estragos em nosso planeta e, com ele, em nossa prosperidade e em nossa segurança." O tom compreensivelmente alarmista continua ao longo do texto: "Agora, os fatos começaram a falar por si próprios: 11 dos últimos 14 anos foram os mais quentes já registrados, a calota polar do Ártico está derretendo e a incrível alta dos preços do petróleo e dos alimentos, no ano passado, nos oferece a antecipação do caos que se avizinha". E por aí vai. O texto termina com um recado aos dirigentes mundiais: Os políticos presentes em Copenhague têm o poder de determinar como nos julgará a história: uma geração que viu um desafio e o enfrentou, ou uma geração tão estúpida que viu o desastre mas não fez nada para evitá-lo."

Dessa ação de caráter simbólico, mas não por isso pouco relevante, participaram apenas dois jornais brasileiros – Zero Hora e Diário Catarinense – ambos vinculados ao grupo RBS. Os três chamados jornalões de circulação nacional desconheceram olimpicamente a iniciativa. Será que esses grandes veículos – e seus congêneres eletrônicos – estão de fato fazendo a parte que lhes cabe nessa guerra que a Humanidade deverá travar por sua sobrevivência? Esta, aliás, é a pergunta da enquete desta semana na edição online do Observatório: "A mídia tem conseguido vincular as catástrofes ambientais no Brasil ao processo de mudanças climáticas?". Cartas para a Redação.


Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

PEC dos Jornalistas é aprovada na CCJC do Senado

A PEC 33/09, que restitui a exigência do diploma de jornalista, foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado ontem (2/12). Na semana passada, o presidente do Senado, José Sarney, prometeu a dirigentes sindicais dos jornalistas que se empenhará na agilização da tramitação da matéria. Representantes da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) reunem-se ainda nesta semana com a Frente Parlamentar em Defesa do Diploma para definição dos próximos encaminhamentos.

A apreciação da matéria na CCJ começou às 11h, com pronunciamento de vários senadores. Posta em votação às 14h15, a PEC 33/09 foi aprovada por 20 votos contra dois. Posicionaram-se contra apenas os senadores Demóstenes Torres (DEM/GO) e ACM Júnior (DEM/BA). A matéria agora segue para apreciação em plenário.

“Os patrões vieram para a disputa e jogaram pesado”, conta o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade. Prova disto foi o acompanhamento da reunião da CCJC pelo próprio presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Daniel Slaviero, que, antecedendo os debates, fez um corpo-a-corpo junto aos parlamentares , inclusive distribuindo panfleto da entidade.

Para Murillo, a presença de representantes do empresariado reforçou o que a FENAJ já vinha apontando, que a questão do diploma não está ligada às liberdades de expressão e de imprensa, mas sim às relações trabalhistas entre empregados e patrões. “Foi mais uma vitória importante do movimento pela qualificação do jornalismo”, disse o presidente da FENAJ. “Mas ainda temos muito trabalho pela frente”, completou, controlando o tom comemorativo de outros dirigentes da entidade e de Sindicatos de Jornalistas que o acompanhavam.

Nesta semana deve ocorrer, ainda, uma reunião entre os autores e relatores das PECs que tramitam na Câmara dos Deputados e do Senado, juntamente com a coordenação da Frente Parlamentar em Defesa do Diploma e com dirigentes da FENAJ. A o objetivo da reunião é estabelecer ações para que a tramitação das matérias avance ainda mais em 2009.


* Texto: Site FENAJ.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mídia cobriu a festa sem entender

A eufórica rememoração dos 20 anos da derrubada do Muro de Berlim logo seguida pelo destroçamento da Cortina de Ferro necessita de alguns contrapesos. A mera exaltação em torno de triunfos produz perigosos desvios cuja soma pode resultar na subversão dos fatos.

A mídia – internacional e brasileira – tem se mostrado exímia em simplificar os significados da derrubada daquela barreira entre as duas Alemanhas. Com as mesmas imagens, sutis manipulações lingüísticas e rememorações incompletas fabrica-se uma História virtual, reduzida, diferente da real.

A queda do muro berlinense e o fim do império soviético não significaram o fim do socialismo. Essa balela não honra uma imprensa qualificada que se pretende isenta e livre. O que caiu – de podre – foi o comunismo, sobretudo a sua versão stalinista, estúpida, sanguinária, totalitária.

O socialismo democrático, ou mais precisamente a social-democracia, não foi despedaçado a golpes de martelo e picareta em 9 de novembro de 1989. Ao contrário, forneceu o cimento de altíssima qualidade para a construção não apenas da República Federal Alemã, a Alemanha Ocidental, como do Mercado Comum Europeu na qual se alimentou e prosperou.

Mesmo quando fora do poder o Partido Social Democrático Alemão (SPD) conseguiu manter todas as características de um welfare-state, estado previdencial, rigorosamente democrático, herdeiro legítimo do humanismo da República de Weimar.

Imperiosa outra correção de caráter histórico-filológico: o liberalismo vitorioso não foi propriamente o liberalismo político, essencialmente democrático, mas o econômico (logo depois apelidado de neoliberalismo), aquele que abomina a função reguladora e social do Estado. O chanceler Helmuth Kohl representava o conservadorismo alemão, mas comparado com os congêneres de outros rincões, sobretudo o anglo-americano, poderia ser qualificado como progressista. Margaret Thatcher e George Herbert Walker Bush representavam o capitalismo agressivo, sem controles, implacável. Este mesmo capitalismo que se estatelou em 2008 e agora
Barack Obama e Mikhail Gorbachev tentam consertar.


Messianismo futurista


Examinados pelo espelho retrovisor e com um intervalo de duas décadas, estes equívocos podem parecer insignificantes. Na realidade, foram os responsáveis por uma ilusão extremamente perigosa. A partir de 1989 – e mais visivelmente a partir de 1991 – o mundo foi intoxicado por um monolitismo medieval. E a mídia foi o arauto de uma diabólica arrogância que não apenas liquidou o Outro, como liquidou as noções de alternativa e alternância.

Fomos empurrados prematuramente para a era da Infalibilidade e das Certezas; o triunfalismo de 1989 não deixou lugar para as dúvidas, questionamentos e ceticismo. E a imprensa só existe, só funciona e só é necessária quando consegue vocalizar dúvidas, questionamentos e ceticismo.

O desvario da mídia brasileira começou justamente nesta época. Foi a fase da "brindologia", farta distribuição de brindes encartados nas edições de domingo. Os jornais queriam aumentar as tiragens de qualquer maneira. Perderam as referências, esqueceram os limites e os compromissos. Quem mandava era o marketing e os consultores internacionais. Foi exatamente naquele momento que desembarcou em nosso país a turma da consultoria Inovación Periodística a serviço da Universidade de Navarra e da Opus Dei.

Jornais e semanários de informação resolveram dar marcha a ré, retroceder na busca da qualidade. Uma imagem vale mil palavras, lembram-se desta bobagem? A vitória sobre o "socialismo" animou os esquartejadores: o mundo estava salvo, a informação qualificada era agora desnecessária. A felicidade e a prosperidade estavam disponíveis, universais.

Dispensaram-se os correspondentes estrangeiros, enxugadas as páginas de noticiário internacional, criados os "pátios dos milagres" (páginas de medicina e saúde alimentadas por press releases da indústria farmacêutica).

As primeiras negociações para a criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) na Unicamp – embrião deste Observatório – datam justamente de 1993, quando o circo da mídia começou a funcionar em alta velocidade.

Naquele vale-tudo pós-Muro e pós-Cortina de Ferro, apareceram as novas tecnologias de informação, a internet, o messianismo futurista, o endeusamento dos gadgets, o culto da obsolescência. Sem clima para duvidar e sem tempo para exercitar a prudência, todos se aboletaram nas modas, ondas e bolhas.


Mundo de ontem


O Muro de Berlim resultou da vitória sobre o nazi-fascismo. Sua derrubada liquidou um dos protagonistas desta façanha, o totalitarismo de esquerda. O esfacelamento deste criou um totalitarismo vândalo, sem filiação, rotativo, fragmentário. Igualmente opressor.

Os mediadores entregaram-se à pressa e aceleraram mudanças que sequer suspeitavam. A mídia assistiu ao desmoronamento do Muro e da Cortina de Ferro sem os entender. Ao contrário da mobilização contra o terror nazi-fascista dos anos 1930 e 40, em 1989 e 1991 a mídia clicou flashes e câmeras sem perceber o que acontecia. Iludiu-se e iludiu.

O suspiro nostálgico do Eric Hobsbawm ao afirmar que o Muro de Berlim mantinha o mundo em segurança precisa ser entendido no contexto da sua Viena e do mundo de ontem. O historiador condenava o caos e o desvario que substituíram a Alemanha dividida e liquidaram os valores que a humanidade perseguiu sistematicamente ao longo de alguns milênios.



Leia também
Capitalismo precisa de sua perestroika – Mikhail Gorbachev
Antes do Muro de Berlim – Alberto Dines
O muro interior – Marcos Flamínio Peres entrevista Eric Hobsbawm [para assinantes da Folha/UOL]



Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br / Por Alberto Dines em 10/11/2009

Coca-Cola usa açúcar de usina sem licença ambiental

Da Repórter Brasil

O Amazonas possui somente uma usina de açúcar e etanol atualmente em funcionamento: a Agropecuária Jayoro, no município de Presidente Figueiredo (AM). Caso o Projeto de Lei do Zoneamento Agroecológico (ZAE) da Cana seja aprovado conforme proposto pelo governo federal - com proibição de novas usinas na Amazônia -, o empreendimento continuará sendo o único do Estado.

Apesar da produção relativamente pequena (são em média 18 mil toneladas por ano), o açúcar da Jayoro chega indiretamente a todo o país e também é exportado para Colômbia, Venezuela e Paraguai. Isso porque como ele é feito, em Manaus (AM), o caramelo que dá sabor à misteriosa fórmula do concentrado de Coca-Cola distribuído para todas as fábricas de produção e engarrafamento do refrigerante no Brasil e nos três países vizinhos.

Considerada uma usina modelo pelo diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, José Mauro de Moraes, a Agropecuária Jayoro está funcionando em 2009 sem ter obtido a renovação anual da licença ambiental dos seus 4 mil hectares de canaviais e de seus 400 hectares de pés de guaraná junto ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão ambiental estadual. Apesar disso, conseguiu renovar as licenças ambientais das unidades industriais de produção de açúcar e etanol e de processamento do guaraná.

A não renovação da licença das lavouras é motivada por irregularidades fundiárias que afetam a averbação da Reserva Legal (80% na Amazônia), segundo Eduardo Costa, analista ambiental do Ipaam. A área ocupada pela Jayoro tem 59 mil hectares, dos quais apenas 13% estão desmatados (4,4 mil hectares com plantações de cana e guaraná; 600 hectares com estradas e construções e 2,67 mil hectares com pastagem degradada).

Poderia ser um bom exemplo de cumprimento da legislação ambiental, mas, formalmente, esses 59 mil hectares são a soma da área de 17 imóveis rurais. A maioria dessas propriedades são terras públicas ocupadas ilegalmente ou áreas tituladas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) há menos de 10 anos (período no qual o posseiro com título não pode vender nem arrendar a terra). "Para considerar a averbação da Reserva Legal de forma conjunta, considerando a área total de 59 mil hextares, a agropecuária precisa resolver a questão fundiária", explica o analista.

"A questão fundiária é um problema antigo da região amazônica. A Jayoro já tem um plano para trabalhar esse problema. Consideramos essa uma não-conformidade que pode ser solucionada", rebateu José Mauro, diretor da Coca-Cola Brasil. "Quando obtivemos nossa licença de operação, o Ipaam não questionou a regularidade da documentação fundiária que apresentamos. Se tivesse nos alertado antes sobre a necessidade de ajustes, isso já estaria resolvido", argumenta o superintendente da Jayoro, Waltair Prata.

Waltair acrescenta que a empresa já enviou ao Ipaam os títulos dos seis imóveis rurais em nome da empresa e que, para as demais áreas, haverá um processo de licenciamento ambiental individualizado, a ser solicitado pelos próprios posseiros quando eles obtiverem os títulos definitivos do Incra.

De acordo com o chefe da unidade avançada do Incra em Presidente Figueiredo (AM), Alfredo Nonato, a regularização fundiária dessas áreas pode acontecer ainda este ano, dentro do Programa Terra Legal - criado com objetivo de simplificar e agilizar o rito de titulação de terras públicas (que hoje demora cerca de cinco anos), mas marcado por críticas de figuras públicas e de setores da sociedade civil. A meta do programa, lançando pelo presidente Lula em junho deste ano, é regularizar em até três anos 296,8 mil posses de até 15 módulos fiscais ocupados antes de 1º de dezembro de 2004 na região amazônica. Desses, cerca de 58,5 mil estão no Amazonas.

Sobre o fato de o governo estadual só agora estar cobrando da Jayoro a regularização fundiária do empreendimento, a diretora-geral do Ipaam, Aldenira Queiroz, justifica que "a administração pública pode a qualquer momento rever seus atos". Ela explica que apenas há dois anos o órgão passou a contar com dados precisos de georreferenciamento das áreas alvo de monitoramento ambiental e que foi a partir de então que os fiscais perceberam que "a empresa incorporou terras além das que ela possuía". Em 2007 e 2008, a licença ambiental das lavouras da Jayoro foi renovada graças à assinatura de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ipaam.

"Além da questão fundiária, outra cláusula ainda não cumprida pela empresa diz respeito à criação de uma unidade de conservação. Por isto, neste ano, a licença está suspensa", sustenta a diretora-geral. O superintendente da Jayoro revelou que há quatro meses apresentou ao Centro Estadual de Unidades de Conservação do Amazonas o pedido de criação de uma Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável. No projeto, há duas áreas em estudo: uma com 334 hectares e outra com 304 hectares de extensão.

O Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) tomou ciência da falta de licenciamento ambiental válido das lavouras da Jayoro em julho deste ano - mas, como a procuradora responsável pelo processo entrou em licença maternidade, não houve ainda oferta de denúncia à Justiça nem tentativa de se firmar um TAC com a empresa.

A agropecuária caiu na mira do MPF no ano passado, quando o órgão abriu um procedimento administrativo para investigar denúncias de que os agrotóxicos utilizados pela Jayoro estariam contaminando igarapés e prejudicando agricultores familiares do entorno. Em 2008, o Ipaam informou aos procuradores que o empreendimento estava cumprindo todas as exigência legais. No início deste ano, porém, quando o MPF oficiou o órgão estadual para que ele enviasse os laudos de análises dos cursos d´água utilizados pelos agricultores em questão, obteve como resposta (em maio) que a renovação da licença da Jayoro estava em análise. Dois meses depois, o Ipaam enviou um parecer informando que a licença não havia sido renovada.


Antigo projeto, novos investidores


O desmatamento na Agropecuária Jayoro ocorreu há mais de 30 anos, no início dos anos 70. A usina nasceu no contexto do Pró-Álcool, com apoio da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), mas logo entrou em decadência. Em 1995, quando o empreendimento foi retomado, com novos investidores (entre eles a Coca-Cola). Eram apenas 300 hectares de canaviais destinados à produção de pinga.

"Hoje 70% de nossa cana vai para produção de açúcar e o restante para etanol, com uma média de 8 milhões de litros por ano, que é a capacidade máxima da nossa destilaria", informa o superintendente da Jayoro. Esse combustível é vendido para pequenas distribuidoras (como a Atem´s e a Distribuidora Nacional de Petróleo - DNP), que atuam no mercado local. "Para eles, somos uma garantia de regularidade no fornecimento quando atrasa a balsa [que traz etanol do Centro-Sul do país]", afirma Waltair Prata.

Já a produção de açúcar, além de atender a Recofarma - empresa do Grupo Coca-Cola, que produz o concentrado do refrigerante nca capital Manaus (AM) -, é vendida para pequenos empacotadores da capital amazonense. "Atendemos cerca de 10% da demanda local de açúcar, apenas. Os maiores fornecedores da região são usinas do Mato Grosso, como a Imarati e a Jaciara", detalha o superintendente da Agropecuária Jayoro.

O guaraná, com o qual se produz o concentrado do refrigerante Kuat, também se destina à Recofarma. "Até o momento, temos vendido o guaraná em xarope", revela Waltair, "mas estamos iniciando o processamento em pó, que facilita a exportação para Atlanta [nos EUA, sede mundial da Coca-Cola]. Isso também nos possibilita alcançar novos mercados, como o da cosmética".


Boas práticas


José Mauro, diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, ressalta que a empresa "audita regularmente" seus fornecedores, avaliando principalmente suas práticas ambientais e trabalhistas. "Se algum aspecto for contraditório, é necessário um plano de ajustamento", declarou o executivo. Questionado sobre se essas auditorias periódicas já apontaram problemas na Agropecuária Jayoro, ele pondera que "correções" fazem parte do processo industrial. "Irregularidades ocorrem em qualquer local. Sempre há motivos para planos de correção. Se você vier ao prédio da Coca-Cola no Rio de Janeiro, agora, vai encontrar problemas", provoca o executivo.

O superintendente da Jayoro confirma que a Coca-Cola, mais do que os órgãos governamentais, pressiona pela adoção de boas práticas ambientais e trabalhistas. "Com o incentivo dela, estamos em processo de certificação ISO 14000", revela Waltair. O ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.

Entre as chamadas tecnologias limpas já adotadas pela Jayoro, está a canalização e pulverização do vinhoto (líquido resultante da produção de etanol, altamente poluente) nos canaviais, servindo como adubo complementar. Há também o aproveitamento do bagaço da cana na geração de energia elétrica. "Nesta safra, inauguramos um novo turbo gerador de 5 megawatts, que consome menos bagaço e produz mais energia que o anterior. Nossa moagem terminou no dia 29 de setembro, mas conseguimos abastecer a agropecuária com energia própria até o dia 24 de outubro, e ainda estocamos um tanto de bagaço para a próxima safra", comemora o superintendente.


Relações trabalhistas


O quadro fixo de funcionários da Jayoro é de 650 pessoas, mas na safra esse número chega a 980 trabalhadores. Na retomada, em 1995, 70% dos cortadores de cana eram trazidos do Maranhão, em aviões fretados. Hoje, os migrantes são apenas 10% e boa parte da colheita (40%) é mecanizada.

"Quando fui contratado pela Jayoro, em 1999, a produtividade média diária de cada cortador era de 4,8 toneladas de cana. Hoje já subiu para 6,7 toneladas", orgulha-se Waltair. "Para aumentá-la, a gente contratou os cortadores mais produtivos e com menos acidentes como instrutores dos demais. Durante duas safras, eles ganharam para ficar andando pelos canaviais, dando dicas aos colegas", gaba-se o superintendente.
Outra estratégia adotada pela empresa é o sorteio anual de uma passagem aérea ao Nordeste, com direito a acompanhante, entre os membros da equipe recordista de dias livres de acidentes de trabalho. Todos os funcionários participam do concurso, inclusive os da área industrial.

"A maior dificuldade que enfrentei foi pegar esses agricultores, que só estão acostumados a plantar mandioca, a caçar de manhã para colher à noite, e treiná-los", afirma o diretor da Agropecuária Jayoro, Eduardo Camillo, que mora em São Paulo (SP). "Quando cheguei a Presidente Figueiredo, mandei derrubar os barracões nos quais se alojavam os cortadores e ordenei que construíssem alojamentos. Logo que entrei para o empreendimento, eu fiz questão de declarar que ali não iríamos ter bóias-frias", destaca.

Os auditores fiscais do trabalho Rômulo Machado e Silva e Klênio Fábio Gomes Lima, da área de Segurança e Medicina, estiveram neste ano na Jayoro. "A agropecuária sempre entra na nossa agenda de fiscalização. A condição geral dela é boa, os trabalhadores usam EPIs [equipamentos de proteção individual], há banheiro na lavoura, a comida é razoável", comenta Rômulo.

Klênio, que fiscalizou a empresa pelo terceiro ano consecutivo, concorda com a avaliação positiva. Ele ressalta que a Jayoro tem se adequado às notificações feitas pelos auditores fiscais e citou como exemplos a inserção de cinto de segurança no ônibus que faz o transporte dos trabalhadores, a remodelagem do facão utilizado no corte manual da cana (para evitar acidentes) e a construção de local apropriado para refeições nas frentes de trabalho.

O chefe da fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Amazonas (SRTE/AM), Francisco Edson Rebouças, lembra, porém, que o corte manual da cana é extenuante sob qualquer condição climática, mas ainda pior no calor e umidade da região. "Não é possível que um trabalhador esteja feliz cortando cana sob o sol de 40ºC do Amazonas".

Em setembro, outra equipe de auditores da SRTE esteve na empresa e aplicou cinco autos de infração. Os funcionários faziam mais que duas horas-extras diárias permitidas por lei; as horas-extras eram pagas ou compensadas, mas não registradas integralmente no cartão de ponto; o período de pagamento ou compensação das horas-extras, às vezes, excedia o prazo legal de um ano; e o tempo de deslocamento dos trabalhadores até a empresa não entrava na contagem da jornada de trabalho. Houve atraso nos salários.


Fonte: www. mst.org.br