ELVIRA LOBATO da Folha de S.Paulo
A Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), iniciada ontem, em Brasília, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pedirá mais transparência nas concessões de rádio e televisão, a proibição de políticos possuírem emissoras e a limitação do avanço das igrejas na mídia.
Entre as propostas encaminhadas para o evento está o acesso público ao cadastro de sócios de empresas de radiodifusão do Ministério das Comunicações. A identificação dos radiodifusores é tabu no governo, em parte, por causa da presença de políticos na lista.
A revogação das concessões vencidas também será proposta. Outra sugestão da Confecom é o fim das autorizações precárias de funcionamento.
A relação entre políticos, igrejas e a radiodifusão é foco de várias proposições. Uma delas sugere a proibição de que políticos recebam outorgas de emissoras comerciais, educativas ou comunitárias. Outra propõe que, no exercício do mandato, eles sejam impedidos de apresentar programas.
A legislação em vigor proíbe que políticos em exercício de mandato tenham cargos de gerência nas emissoras de radiodifusão, mas não os impede de serem acionistas das empresas.
No tocante às igrejas, uma sugestão é que exista apenas um canal religioso, a ser compartilhado entre todas as denominações religiosas, cada vez mais presentes no setor. A legislação não permite a concessão de radiodifusão a igrejas.
Propostas
Até o término da conferência, na quinta-feira, 15 grupos discutirão 1.400 propostas, das quais 105 serão colocadas em votação no plenário, onde estarão 1.539 delegados, indicados por empresas, sindicatos e movimentos sociais e governo.
A representação do empresariado na conferência está prejudicada pela ausência dos grandes meios de comunicação –6 das 8 entidades representantes das empresas do setor deixaram o evento. Restaram a Bandeirantes, a Rede TV e as empresas de telefonia.
Na agenda do evento estão várias propostas contrárias às empresas de radiodifusão, como o controle social sobre a mídia e a criação de horários gratuitos nas TVs e rádios para os movimentos sindicais e sociais.
A conferência não tem poder para impor mudanças, mas apenas para recomendá-las.
Fonte: www.paulorubem.com.br / Folha de S. Paulo.
Matérias com um olhar crítico e acima de tudo ético. Visando um respeito e responsabilidade ao transmitir as informações à sociedade. Mostrar a população as várias "faces" do jornalismo.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
UPE será gratuita em 2010
O Reitor da Universidade de Pernambuco (UPE), Prof. Carlos Calado, juntamente com o Excelentíssimo Governador do Estado, Eduardo Campos, a Ilustríssima Secretária Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (Sectma), Luciana Santos, convidam todos os professores, servidores e alunos para participarem do ato de assinatura do decreto que institui a gratuidade na Universidade a partir de 2010. O evento acontece nesta segunda-feira (14/12), às 9hs, no auditório Clélio Lemos da Faculdade de Ciências da Administração da UPE (Fcap), que fica na Av. Sport Clube do Recife, 252 – Madalena.
Para o Reitor, a participação de toda comunidade acadêmica é muito importante, pois é um momento histórico que marca toda de luta da instituição em busca da democratização do acesso ao ensino superior gratuito e de qualidade. O ato representa, ainda, o primeiro passo para a Autonomia Plena da UPE.
fonte : UPE / www.paulorubem.com.br
Para o Reitor, a participação de toda comunidade acadêmica é muito importante, pois é um momento histórico que marca toda de luta da instituição em busca da democratização do acesso ao ensino superior gratuito e de qualidade. O ato representa, ainda, o primeiro passo para a Autonomia Plena da UPE.
fonte : UPE / www.paulorubem.com.br
Censura não pode ficar fora da pauta
A manutenção da mordaça no Estadão decidida pelo STF não pode ficar fora da pauta da 1ª Conferência de Comunicação (Confecom), que começa hoje em Brasília.
A incrível decisão do TJ do Distrito Federal impedindo a publicação de informações da Polícia Federal sobre os negócios da família Sarney vige há 136 dias e foi confirmada pela aberrante votação no STF da última quinta-feira.
Não é fato novo nem isolado, o presidente da secular e prestigiosa ABI, Associação Brasileira de Imprensa, jornalista Maurício Azedo, repete há anos a mesma e surpreendente denúncia: o Poder Judiciário é o grande algoz da liberdade de imprensa no Brasil.
O assunto, evidentemente, não é da alçada do Executivo e nem cabe aos ministérios que participaram da preparação da Conferência questionar o Judiciário. Mas o aberrante desvio funcional e institucional do poder encarregado de proteger o Estado de Direito democrático não pode ser minimizado ou desconsiderado pelas entidades do 3º Setor há meses empenhadas na preparação da Confecom, cuja meta central é tornar equitativa e plural a circulação de informações. Sobretudo depois do rompimento das maiores entidades empresariais com os órgãos governamentais que organizaram o evento.
Jornalistas prejudicados pela censura
As bandeiras da liberdade de imprensa e de expressão não são propriedade do empresariado da comunicação. Ao contrário, os maiores prejudicados pelo cerceamento da liberdade são os profissionais da informação. Eles – e não os executivos ou acionistas – são as primeiras e maiores vítimas dos atos de arbítrio. Uma imprensa amordaçada e controlada pelos tiranetes togados não precisa de repórteres, fotógrafos ou cinegrafistas. Lutar contra a censura é uma forma direta de garantir empregos.
O objetivo primário da censura é intimidar aqueles que fizeram do ofício de informar um compromisso de vida. Daí a importância de um pronunciamento subscrito pela Confecom contra magistrados e tribunais que sob diversos pretextos e a serviço de difusos interesses tentam reviver os paradigmas vigentes durante o regime militar.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br / Por Alberto Dines em 14/12/2009
A incrível decisão do TJ do Distrito Federal impedindo a publicação de informações da Polícia Federal sobre os negócios da família Sarney vige há 136 dias e foi confirmada pela aberrante votação no STF da última quinta-feira.
Não é fato novo nem isolado, o presidente da secular e prestigiosa ABI, Associação Brasileira de Imprensa, jornalista Maurício Azedo, repete há anos a mesma e surpreendente denúncia: o Poder Judiciário é o grande algoz da liberdade de imprensa no Brasil.
O assunto, evidentemente, não é da alçada do Executivo e nem cabe aos ministérios que participaram da preparação da Conferência questionar o Judiciário. Mas o aberrante desvio funcional e institucional do poder encarregado de proteger o Estado de Direito democrático não pode ser minimizado ou desconsiderado pelas entidades do 3º Setor há meses empenhadas na preparação da Confecom, cuja meta central é tornar equitativa e plural a circulação de informações. Sobretudo depois do rompimento das maiores entidades empresariais com os órgãos governamentais que organizaram o evento.
Jornalistas prejudicados pela censura
As bandeiras da liberdade de imprensa e de expressão não são propriedade do empresariado da comunicação. Ao contrário, os maiores prejudicados pelo cerceamento da liberdade são os profissionais da informação. Eles – e não os executivos ou acionistas – são as primeiras e maiores vítimas dos atos de arbítrio. Uma imprensa amordaçada e controlada pelos tiranetes togados não precisa de repórteres, fotógrafos ou cinegrafistas. Lutar contra a censura é uma forma direta de garantir empregos.
O objetivo primário da censura é intimidar aqueles que fizeram do ofício de informar um compromisso de vida. Daí a importância de um pronunciamento subscrito pela Confecom contra magistrados e tribunais que sob diversos pretextos e a serviço de difusos interesses tentam reviver os paradigmas vigentes durante o regime militar.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br / Por Alberto Dines em 14/12/2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
O problema ambiental e as responsabilidades de mídia
Por Lilia Diniz em 10/12/2009
Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.
Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente.
Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?
Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).
Antes do debate ao vivo, na coluna "Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."
A informação descontextualizada
Ainda antes do debate no estúdio, em editorial [íntegra abaixo], Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.
A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.
O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.
A mudança climática já assombra o Brasil?
Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.
Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.
De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.
Na Europa, um panorama bem diferente
Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio dá resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.
No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.
Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador.
Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.
A internet como aliada
Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional.
"Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.
"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.
Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.
Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.
Estado ausente
Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.
Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.
Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente.
Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?
Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).
Antes do debate ao vivo, na coluna "Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."
A informação descontextualizada
Ainda antes do debate no estúdio, em editorial [íntegra abaixo], Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.
A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.
O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.
A mudança climática já assombra o Brasil?
Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.
Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.
De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.
Na Europa, um panorama bem diferente
Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio dá resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.
No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.
Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador.
Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.
A internet como aliada
Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional.
"Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.
"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.
Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.
Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.
Estado ausente
Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.
Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
O problema ambiental e as responsabilidades de mídia
Por Lilia Diniz em 10/12/2009
Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.
Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente.
Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?
Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).
Antes do debate ao vivo, na coluna "Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."
A informação descontextualizada
Ainda antes do debate no estúdio, em editorial [íntegra abaixo], Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.
A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.
O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.
A mudança climática já assombra o Brasil?
Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.
Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.
De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.
Na Europa, um panorama bem diferente
Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio dá resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.
No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.
Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador.
Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.
A internet como aliada
Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional.
"Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.
"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.
Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.
Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.
Estado ausente
Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.
Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.
Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente.
Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?
Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).
Antes do debate ao vivo, na coluna "Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."
A informação descontextualizada
Ainda antes do debate no estúdio, em editorial [íntegra abaixo], Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.
A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.
O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.
A mudança climática já assombra o Brasil?
Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.
Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.
De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.
Na Europa, um panorama bem diferente
Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio dá resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.
No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.
Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador.
Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.
A internet como aliada
Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional.
"Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.
"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.
Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.
Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.
Estado ausente
Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.
Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Caos nas ruas, confusão nos jornais
Comentários para o programa radiofônico do OI, 9/12/2009
Mais um dia de caos em São Paulo após as chuvas fortes é a manchete inevitável dos grandes jornais paulistas e destaque no Globo.
No Globo, manchete para o aumento de preços de materiais de construção no Rio, destaque para as enchentes em São Paulo e para a conferência do clima, que começa em Copenhague.
Nos jornais paulistas, nenhuma atenção à conferência de Copenhague na primeira página. Apenas uma referência, no pé de um texto na manchete do Estado de S.Paulo: "Para estudiosos, as chuvas persistentes podem já ser resultado das mudanças climáticas".
Poucas aulas de jornalismo poderiam ser mais esclarecedoras do que a observação das edições de quarta-feira (9/12) dos jornais para se chegar à constatação de que a imprensa ainda não integrou o aquecimento global como tema transversal ao noticiário.
Apesar das evidências de que o fenômeno afeta praticamente todos os aspectos da vida comum, os jornais ainda o tratam como assunto isolado, distante do noticiário econômico, dos acontecimentos que afetam a qualidade de vida da população e das escolhas de políticas públicas.
Poder do boato
Acobertura dos debates em Copenhague ficou totalmente comprometida pelas controvérsias, alimentadas pela imprensa, em torno de um documento atribuído ao governo da Dinamarca, e que foi considerado desfavorável aos países em desenvolvimento. O documento, publicado pelo jornal britânico Guardian, provocou uma sucessão de informações desencontradas em sites noticiosos de todo o mundo.
Nas edições de papel de quarta-feira (9), fica claro que se tratava de um balão de ensaio para uma suposta negativa dos países ricos a pedidos de financiamento por parte das nações em desenvolvimento para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
O texto, sem assinaturas, circulou como se fosse um documento oficial, o que aumentou a confusão. Propõe medidas para limitar o crescimento da temperatura média do planeta ao máximo de 2 ºC em relação aos níveis do período pré-industrial, reconhece que as nações industrializadas são responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa e admite que as medidas para mitigar seus malefícios não podem ser partilhadas igualmente com os países em desenvolvimento, cuja prioridade é erradicar a pobreza.
A controvérsia, que seguia sem esclarecimento, indica que a imprensa não tem uma estratégia clara para a cobertura da conferência.
Um simples boato é capaz de desmanchar todo o planejamento da edição. E os jornais ainda não enxergam a relação direta entre o tema de Copenhague e as enchentes quase diárias nas cidades brasileiras.
***
A política do avestruz
Luiz Egypto
"Diante de uma grave emergência." Este é o título de um editorial publicado na segunda-feira (7/12), simultaneamente, por 56 jornais de 45 países a propósito da abertura da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reunida em Copenhague (Dinamarca), com término previsto para 18 de dezembro.
A iniciativa dos jornais é mais uma evidência da gravidade do problema que assola o planeta, até agora incapaz de equacionar a contento a questão energética e a emissão descontrolada de gases de efeito estufa.
"Se não nos unirmos para empreender ações decisivas", afirma o editorial, "a mudança climática causará estragos em nosso planeta e, com ele, em nossa prosperidade e em nossa segurança." O tom compreensivelmente alarmista continua ao longo do texto: "Agora, os fatos começaram a falar por si próprios: 11 dos últimos 14 anos foram os mais quentes já registrados, a calota polar do Ártico está derretendo e a incrível alta dos preços do petróleo e dos alimentos, no ano passado, nos oferece a antecipação do caos que se avizinha". E por aí vai. O texto termina com um recado aos dirigentes mundiais: Os políticos presentes em Copenhague têm o poder de determinar como nos julgará a história: uma geração que viu um desafio e o enfrentou, ou uma geração tão estúpida que viu o desastre mas não fez nada para evitá-lo."
Dessa ação de caráter simbólico, mas não por isso pouco relevante, participaram apenas dois jornais brasileiros – Zero Hora e Diário Catarinense – ambos vinculados ao grupo RBS. Os três chamados jornalões de circulação nacional desconheceram olimpicamente a iniciativa. Será que esses grandes veículos – e seus congêneres eletrônicos – estão de fato fazendo a parte que lhes cabe nessa guerra que a Humanidade deverá travar por sua sobrevivência? Esta, aliás, é a pergunta da enquete desta semana na edição online do Observatório: "A mídia tem conseguido vincular as catástrofes ambientais no Brasil ao processo de mudanças climáticas?". Cartas para a Redação.
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br
Mais um dia de caos em São Paulo após as chuvas fortes é a manchete inevitável dos grandes jornais paulistas e destaque no Globo.
No Globo, manchete para o aumento de preços de materiais de construção no Rio, destaque para as enchentes em São Paulo e para a conferência do clima, que começa em Copenhague.
Nos jornais paulistas, nenhuma atenção à conferência de Copenhague na primeira página. Apenas uma referência, no pé de um texto na manchete do Estado de S.Paulo: "Para estudiosos, as chuvas persistentes podem já ser resultado das mudanças climáticas".
Poucas aulas de jornalismo poderiam ser mais esclarecedoras do que a observação das edições de quarta-feira (9/12) dos jornais para se chegar à constatação de que a imprensa ainda não integrou o aquecimento global como tema transversal ao noticiário.
Apesar das evidências de que o fenômeno afeta praticamente todos os aspectos da vida comum, os jornais ainda o tratam como assunto isolado, distante do noticiário econômico, dos acontecimentos que afetam a qualidade de vida da população e das escolhas de políticas públicas.
Poder do boato
Acobertura dos debates em Copenhague ficou totalmente comprometida pelas controvérsias, alimentadas pela imprensa, em torno de um documento atribuído ao governo da Dinamarca, e que foi considerado desfavorável aos países em desenvolvimento. O documento, publicado pelo jornal britânico Guardian, provocou uma sucessão de informações desencontradas em sites noticiosos de todo o mundo.
Nas edições de papel de quarta-feira (9), fica claro que se tratava de um balão de ensaio para uma suposta negativa dos países ricos a pedidos de financiamento por parte das nações em desenvolvimento para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
O texto, sem assinaturas, circulou como se fosse um documento oficial, o que aumentou a confusão. Propõe medidas para limitar o crescimento da temperatura média do planeta ao máximo de 2 ºC em relação aos níveis do período pré-industrial, reconhece que as nações industrializadas são responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa e admite que as medidas para mitigar seus malefícios não podem ser partilhadas igualmente com os países em desenvolvimento, cuja prioridade é erradicar a pobreza.
A controvérsia, que seguia sem esclarecimento, indica que a imprensa não tem uma estratégia clara para a cobertura da conferência.
Um simples boato é capaz de desmanchar todo o planejamento da edição. E os jornais ainda não enxergam a relação direta entre o tema de Copenhague e as enchentes quase diárias nas cidades brasileiras.
***
A política do avestruz
Luiz Egypto
"Diante de uma grave emergência." Este é o título de um editorial publicado na segunda-feira (7/12), simultaneamente, por 56 jornais de 45 países a propósito da abertura da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reunida em Copenhague (Dinamarca), com término previsto para 18 de dezembro.
A iniciativa dos jornais é mais uma evidência da gravidade do problema que assola o planeta, até agora incapaz de equacionar a contento a questão energética e a emissão descontrolada de gases de efeito estufa.
"Se não nos unirmos para empreender ações decisivas", afirma o editorial, "a mudança climática causará estragos em nosso planeta e, com ele, em nossa prosperidade e em nossa segurança." O tom compreensivelmente alarmista continua ao longo do texto: "Agora, os fatos começaram a falar por si próprios: 11 dos últimos 14 anos foram os mais quentes já registrados, a calota polar do Ártico está derretendo e a incrível alta dos preços do petróleo e dos alimentos, no ano passado, nos oferece a antecipação do caos que se avizinha". E por aí vai. O texto termina com um recado aos dirigentes mundiais: Os políticos presentes em Copenhague têm o poder de determinar como nos julgará a história: uma geração que viu um desafio e o enfrentou, ou uma geração tão estúpida que viu o desastre mas não fez nada para evitá-lo."
Dessa ação de caráter simbólico, mas não por isso pouco relevante, participaram apenas dois jornais brasileiros – Zero Hora e Diário Catarinense – ambos vinculados ao grupo RBS. Os três chamados jornalões de circulação nacional desconheceram olimpicamente a iniciativa. Será que esses grandes veículos – e seus congêneres eletrônicos – estão de fato fazendo a parte que lhes cabe nessa guerra que a Humanidade deverá travar por sua sobrevivência? Esta, aliás, é a pergunta da enquete desta semana na edição online do Observatório: "A mídia tem conseguido vincular as catástrofes ambientais no Brasil ao processo de mudanças climáticas?". Cartas para a Redação.
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
PEC dos Jornalistas é aprovada na CCJC do Senado
A PEC 33/09, que restitui a exigência do diploma de jornalista, foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado ontem (2/12). Na semana passada, o presidente do Senado, José Sarney, prometeu a dirigentes sindicais dos jornalistas que se empenhará na agilização da tramitação da matéria. Representantes da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) reunem-se ainda nesta semana com a Frente Parlamentar em Defesa do Diploma para definição dos próximos encaminhamentos.
A apreciação da matéria na CCJ começou às 11h, com pronunciamento de vários senadores. Posta em votação às 14h15, a PEC 33/09 foi aprovada por 20 votos contra dois. Posicionaram-se contra apenas os senadores Demóstenes Torres (DEM/GO) e ACM Júnior (DEM/BA). A matéria agora segue para apreciação em plenário.
“Os patrões vieram para a disputa e jogaram pesado”, conta o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade. Prova disto foi o acompanhamento da reunião da CCJC pelo próprio presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Daniel Slaviero, que, antecedendo os debates, fez um corpo-a-corpo junto aos parlamentares , inclusive distribuindo panfleto da entidade.
Para Murillo, a presença de representantes do empresariado reforçou o que a FENAJ já vinha apontando, que a questão do diploma não está ligada às liberdades de expressão e de imprensa, mas sim às relações trabalhistas entre empregados e patrões. “Foi mais uma vitória importante do movimento pela qualificação do jornalismo”, disse o presidente da FENAJ. “Mas ainda temos muito trabalho pela frente”, completou, controlando o tom comemorativo de outros dirigentes da entidade e de Sindicatos de Jornalistas que o acompanhavam.
Nesta semana deve ocorrer, ainda, uma reunião entre os autores e relatores das PECs que tramitam na Câmara dos Deputados e do Senado, juntamente com a coordenação da Frente Parlamentar em Defesa do Diploma e com dirigentes da FENAJ. A o objetivo da reunião é estabelecer ações para que a tramitação das matérias avance ainda mais em 2009.
* Texto: Site FENAJ.
A apreciação da matéria na CCJ começou às 11h, com pronunciamento de vários senadores. Posta em votação às 14h15, a PEC 33/09 foi aprovada por 20 votos contra dois. Posicionaram-se contra apenas os senadores Demóstenes Torres (DEM/GO) e ACM Júnior (DEM/BA). A matéria agora segue para apreciação em plenário.
“Os patrões vieram para a disputa e jogaram pesado”, conta o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade. Prova disto foi o acompanhamento da reunião da CCJC pelo próprio presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Daniel Slaviero, que, antecedendo os debates, fez um corpo-a-corpo junto aos parlamentares , inclusive distribuindo panfleto da entidade.
Para Murillo, a presença de representantes do empresariado reforçou o que a FENAJ já vinha apontando, que a questão do diploma não está ligada às liberdades de expressão e de imprensa, mas sim às relações trabalhistas entre empregados e patrões. “Foi mais uma vitória importante do movimento pela qualificação do jornalismo”, disse o presidente da FENAJ. “Mas ainda temos muito trabalho pela frente”, completou, controlando o tom comemorativo de outros dirigentes da entidade e de Sindicatos de Jornalistas que o acompanhavam.
Nesta semana deve ocorrer, ainda, uma reunião entre os autores e relatores das PECs que tramitam na Câmara dos Deputados e do Senado, juntamente com a coordenação da Frente Parlamentar em Defesa do Diploma e com dirigentes da FENAJ. A o objetivo da reunião é estabelecer ações para que a tramitação das matérias avance ainda mais em 2009.
* Texto: Site FENAJ.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Mídia cobriu a festa sem entender
A eufórica rememoração dos 20 anos da derrubada do Muro de Berlim logo seguida pelo destroçamento da Cortina de Ferro necessita de alguns contrapesos. A mera exaltação em torno de triunfos produz perigosos desvios cuja soma pode resultar na subversão dos fatos.
A mídia – internacional e brasileira – tem se mostrado exímia em simplificar os significados da derrubada daquela barreira entre as duas Alemanhas. Com as mesmas imagens, sutis manipulações lingüísticas e rememorações incompletas fabrica-se uma História virtual, reduzida, diferente da real.
A queda do muro berlinense e o fim do império soviético não significaram o fim do socialismo. Essa balela não honra uma imprensa qualificada que se pretende isenta e livre. O que caiu – de podre – foi o comunismo, sobretudo a sua versão stalinista, estúpida, sanguinária, totalitária.
O socialismo democrático, ou mais precisamente a social-democracia, não foi despedaçado a golpes de martelo e picareta em 9 de novembro de 1989. Ao contrário, forneceu o cimento de altíssima qualidade para a construção não apenas da República Federal Alemã, a Alemanha Ocidental, como do Mercado Comum Europeu na qual se alimentou e prosperou.
Mesmo quando fora do poder o Partido Social Democrático Alemão (SPD) conseguiu manter todas as características de um welfare-state, estado previdencial, rigorosamente democrático, herdeiro legítimo do humanismo da República de Weimar.
Imperiosa outra correção de caráter histórico-filológico: o liberalismo vitorioso não foi propriamente o liberalismo político, essencialmente democrático, mas o econômico (logo depois apelidado de neoliberalismo), aquele que abomina a função reguladora e social do Estado. O chanceler Helmuth Kohl representava o conservadorismo alemão, mas comparado com os congêneres de outros rincões, sobretudo o anglo-americano, poderia ser qualificado como progressista. Margaret Thatcher e George Herbert Walker Bush representavam o capitalismo agressivo, sem controles, implacável. Este mesmo capitalismo que se estatelou em 2008 e agora
Barack Obama e Mikhail Gorbachev tentam consertar.
Messianismo futurista
Examinados pelo espelho retrovisor e com um intervalo de duas décadas, estes equívocos podem parecer insignificantes. Na realidade, foram os responsáveis por uma ilusão extremamente perigosa. A partir de 1989 – e mais visivelmente a partir de 1991 – o mundo foi intoxicado por um monolitismo medieval. E a mídia foi o arauto de uma diabólica arrogância que não apenas liquidou o Outro, como liquidou as noções de alternativa e alternância.
Fomos empurrados prematuramente para a era da Infalibilidade e das Certezas; o triunfalismo de 1989 não deixou lugar para as dúvidas, questionamentos e ceticismo. E a imprensa só existe, só funciona e só é necessária quando consegue vocalizar dúvidas, questionamentos e ceticismo.
O desvario da mídia brasileira começou justamente nesta época. Foi a fase da "brindologia", farta distribuição de brindes encartados nas edições de domingo. Os jornais queriam aumentar as tiragens de qualquer maneira. Perderam as referências, esqueceram os limites e os compromissos. Quem mandava era o marketing e os consultores internacionais. Foi exatamente naquele momento que desembarcou em nosso país a turma da consultoria Inovación Periodística a serviço da Universidade de Navarra e da Opus Dei.
Jornais e semanários de informação resolveram dar marcha a ré, retroceder na busca da qualidade. Uma imagem vale mil palavras, lembram-se desta bobagem? A vitória sobre o "socialismo" animou os esquartejadores: o mundo estava salvo, a informação qualificada era agora desnecessária. A felicidade e a prosperidade estavam disponíveis, universais.
Dispensaram-se os correspondentes estrangeiros, enxugadas as páginas de noticiário internacional, criados os "pátios dos milagres" (páginas de medicina e saúde alimentadas por press releases da indústria farmacêutica).
As primeiras negociações para a criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) na Unicamp – embrião deste Observatório – datam justamente de 1993, quando o circo da mídia começou a funcionar em alta velocidade.
Naquele vale-tudo pós-Muro e pós-Cortina de Ferro, apareceram as novas tecnologias de informação, a internet, o messianismo futurista, o endeusamento dos gadgets, o culto da obsolescência. Sem clima para duvidar e sem tempo para exercitar a prudência, todos se aboletaram nas modas, ondas e bolhas.
Mundo de ontem
O Muro de Berlim resultou da vitória sobre o nazi-fascismo. Sua derrubada liquidou um dos protagonistas desta façanha, o totalitarismo de esquerda. O esfacelamento deste criou um totalitarismo vândalo, sem filiação, rotativo, fragmentário. Igualmente opressor.
Os mediadores entregaram-se à pressa e aceleraram mudanças que sequer suspeitavam. A mídia assistiu ao desmoronamento do Muro e da Cortina de Ferro sem os entender. Ao contrário da mobilização contra o terror nazi-fascista dos anos 1930 e 40, em 1989 e 1991 a mídia clicou flashes e câmeras sem perceber o que acontecia. Iludiu-se e iludiu.
O suspiro nostálgico do Eric Hobsbawm ao afirmar que o Muro de Berlim mantinha o mundo em segurança precisa ser entendido no contexto da sua Viena e do mundo de ontem. O historiador condenava o caos e o desvario que substituíram a Alemanha dividida e liquidaram os valores que a humanidade perseguiu sistematicamente ao longo de alguns milênios.
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Antes do Muro de Berlim – Alberto Dines
O muro interior – Marcos Flamínio Peres entrevista Eric Hobsbawm [para assinantes da Folha/UOL]
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br / Por Alberto Dines em 10/11/2009
A mídia – internacional e brasileira – tem se mostrado exímia em simplificar os significados da derrubada daquela barreira entre as duas Alemanhas. Com as mesmas imagens, sutis manipulações lingüísticas e rememorações incompletas fabrica-se uma História virtual, reduzida, diferente da real.
A queda do muro berlinense e o fim do império soviético não significaram o fim do socialismo. Essa balela não honra uma imprensa qualificada que se pretende isenta e livre. O que caiu – de podre – foi o comunismo, sobretudo a sua versão stalinista, estúpida, sanguinária, totalitária.
O socialismo democrático, ou mais precisamente a social-democracia, não foi despedaçado a golpes de martelo e picareta em 9 de novembro de 1989. Ao contrário, forneceu o cimento de altíssima qualidade para a construção não apenas da República Federal Alemã, a Alemanha Ocidental, como do Mercado Comum Europeu na qual se alimentou e prosperou.
Mesmo quando fora do poder o Partido Social Democrático Alemão (SPD) conseguiu manter todas as características de um welfare-state, estado previdencial, rigorosamente democrático, herdeiro legítimo do humanismo da República de Weimar.
Imperiosa outra correção de caráter histórico-filológico: o liberalismo vitorioso não foi propriamente o liberalismo político, essencialmente democrático, mas o econômico (logo depois apelidado de neoliberalismo), aquele que abomina a função reguladora e social do Estado. O chanceler Helmuth Kohl representava o conservadorismo alemão, mas comparado com os congêneres de outros rincões, sobretudo o anglo-americano, poderia ser qualificado como progressista. Margaret Thatcher e George Herbert Walker Bush representavam o capitalismo agressivo, sem controles, implacável. Este mesmo capitalismo que se estatelou em 2008 e agora
Barack Obama e Mikhail Gorbachev tentam consertar.
Messianismo futurista
Examinados pelo espelho retrovisor e com um intervalo de duas décadas, estes equívocos podem parecer insignificantes. Na realidade, foram os responsáveis por uma ilusão extremamente perigosa. A partir de 1989 – e mais visivelmente a partir de 1991 – o mundo foi intoxicado por um monolitismo medieval. E a mídia foi o arauto de uma diabólica arrogância que não apenas liquidou o Outro, como liquidou as noções de alternativa e alternância.
Fomos empurrados prematuramente para a era da Infalibilidade e das Certezas; o triunfalismo de 1989 não deixou lugar para as dúvidas, questionamentos e ceticismo. E a imprensa só existe, só funciona e só é necessária quando consegue vocalizar dúvidas, questionamentos e ceticismo.
O desvario da mídia brasileira começou justamente nesta época. Foi a fase da "brindologia", farta distribuição de brindes encartados nas edições de domingo. Os jornais queriam aumentar as tiragens de qualquer maneira. Perderam as referências, esqueceram os limites e os compromissos. Quem mandava era o marketing e os consultores internacionais. Foi exatamente naquele momento que desembarcou em nosso país a turma da consultoria Inovación Periodística a serviço da Universidade de Navarra e da Opus Dei.
Jornais e semanários de informação resolveram dar marcha a ré, retroceder na busca da qualidade. Uma imagem vale mil palavras, lembram-se desta bobagem? A vitória sobre o "socialismo" animou os esquartejadores: o mundo estava salvo, a informação qualificada era agora desnecessária. A felicidade e a prosperidade estavam disponíveis, universais.
Dispensaram-se os correspondentes estrangeiros, enxugadas as páginas de noticiário internacional, criados os "pátios dos milagres" (páginas de medicina e saúde alimentadas por press releases da indústria farmacêutica).
As primeiras negociações para a criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) na Unicamp – embrião deste Observatório – datam justamente de 1993, quando o circo da mídia começou a funcionar em alta velocidade.
Naquele vale-tudo pós-Muro e pós-Cortina de Ferro, apareceram as novas tecnologias de informação, a internet, o messianismo futurista, o endeusamento dos gadgets, o culto da obsolescência. Sem clima para duvidar e sem tempo para exercitar a prudência, todos se aboletaram nas modas, ondas e bolhas.
Mundo de ontem
O Muro de Berlim resultou da vitória sobre o nazi-fascismo. Sua derrubada liquidou um dos protagonistas desta façanha, o totalitarismo de esquerda. O esfacelamento deste criou um totalitarismo vândalo, sem filiação, rotativo, fragmentário. Igualmente opressor.
Os mediadores entregaram-se à pressa e aceleraram mudanças que sequer suspeitavam. A mídia assistiu ao desmoronamento do Muro e da Cortina de Ferro sem os entender. Ao contrário da mobilização contra o terror nazi-fascista dos anos 1930 e 40, em 1989 e 1991 a mídia clicou flashes e câmeras sem perceber o que acontecia. Iludiu-se e iludiu.
O suspiro nostálgico do Eric Hobsbawm ao afirmar que o Muro de Berlim mantinha o mundo em segurança precisa ser entendido no contexto da sua Viena e do mundo de ontem. O historiador condenava o caos e o desvario que substituíram a Alemanha dividida e liquidaram os valores que a humanidade perseguiu sistematicamente ao longo de alguns milênios.
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Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br / Por Alberto Dines em 10/11/2009
Coca-Cola usa açúcar de usina sem licença ambiental
Da Repórter Brasil
O Amazonas possui somente uma usina de açúcar e etanol atualmente em funcionamento: a Agropecuária Jayoro, no município de Presidente Figueiredo (AM). Caso o Projeto de Lei do Zoneamento Agroecológico (ZAE) da Cana seja aprovado conforme proposto pelo governo federal - com proibição de novas usinas na Amazônia -, o empreendimento continuará sendo o único do Estado.
Apesar da produção relativamente pequena (são em média 18 mil toneladas por ano), o açúcar da Jayoro chega indiretamente a todo o país e também é exportado para Colômbia, Venezuela e Paraguai. Isso porque como ele é feito, em Manaus (AM), o caramelo que dá sabor à misteriosa fórmula do concentrado de Coca-Cola distribuído para todas as fábricas de produção e engarrafamento do refrigerante no Brasil e nos três países vizinhos.
Considerada uma usina modelo pelo diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, José Mauro de Moraes, a Agropecuária Jayoro está funcionando em 2009 sem ter obtido a renovação anual da licença ambiental dos seus 4 mil hectares de canaviais e de seus 400 hectares de pés de guaraná junto ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão ambiental estadual. Apesar disso, conseguiu renovar as licenças ambientais das unidades industriais de produção de açúcar e etanol e de processamento do guaraná.
A não renovação da licença das lavouras é motivada por irregularidades fundiárias que afetam a averbação da Reserva Legal (80% na Amazônia), segundo Eduardo Costa, analista ambiental do Ipaam. A área ocupada pela Jayoro tem 59 mil hectares, dos quais apenas 13% estão desmatados (4,4 mil hectares com plantações de cana e guaraná; 600 hectares com estradas e construções e 2,67 mil hectares com pastagem degradada).
Poderia ser um bom exemplo de cumprimento da legislação ambiental, mas, formalmente, esses 59 mil hectares são a soma da área de 17 imóveis rurais. A maioria dessas propriedades são terras públicas ocupadas ilegalmente ou áreas tituladas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) há menos de 10 anos (período no qual o posseiro com título não pode vender nem arrendar a terra). "Para considerar a averbação da Reserva Legal de forma conjunta, considerando a área total de 59 mil hextares, a agropecuária precisa resolver a questão fundiária", explica o analista.
"A questão fundiária é um problema antigo da região amazônica. A Jayoro já tem um plano para trabalhar esse problema. Consideramos essa uma não-conformidade que pode ser solucionada", rebateu José Mauro, diretor da Coca-Cola Brasil. "Quando obtivemos nossa licença de operação, o Ipaam não questionou a regularidade da documentação fundiária que apresentamos. Se tivesse nos alertado antes sobre a necessidade de ajustes, isso já estaria resolvido", argumenta o superintendente da Jayoro, Waltair Prata.
Waltair acrescenta que a empresa já enviou ao Ipaam os títulos dos seis imóveis rurais em nome da empresa e que, para as demais áreas, haverá um processo de licenciamento ambiental individualizado, a ser solicitado pelos próprios posseiros quando eles obtiverem os títulos definitivos do Incra.
De acordo com o chefe da unidade avançada do Incra em Presidente Figueiredo (AM), Alfredo Nonato, a regularização fundiária dessas áreas pode acontecer ainda este ano, dentro do Programa Terra Legal - criado com objetivo de simplificar e agilizar o rito de titulação de terras públicas (que hoje demora cerca de cinco anos), mas marcado por críticas de figuras públicas e de setores da sociedade civil. A meta do programa, lançando pelo presidente Lula em junho deste ano, é regularizar em até três anos 296,8 mil posses de até 15 módulos fiscais ocupados antes de 1º de dezembro de 2004 na região amazônica. Desses, cerca de 58,5 mil estão no Amazonas.
Sobre o fato de o governo estadual só agora estar cobrando da Jayoro a regularização fundiária do empreendimento, a diretora-geral do Ipaam, Aldenira Queiroz, justifica que "a administração pública pode a qualquer momento rever seus atos". Ela explica que apenas há dois anos o órgão passou a contar com dados precisos de georreferenciamento das áreas alvo de monitoramento ambiental e que foi a partir de então que os fiscais perceberam que "a empresa incorporou terras além das que ela possuía". Em 2007 e 2008, a licença ambiental das lavouras da Jayoro foi renovada graças à assinatura de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ipaam.
"Além da questão fundiária, outra cláusula ainda não cumprida pela empresa diz respeito à criação de uma unidade de conservação. Por isto, neste ano, a licença está suspensa", sustenta a diretora-geral. O superintendente da Jayoro revelou que há quatro meses apresentou ao Centro Estadual de Unidades de Conservação do Amazonas o pedido de criação de uma Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável. No projeto, há duas áreas em estudo: uma com 334 hectares e outra com 304 hectares de extensão.
O Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) tomou ciência da falta de licenciamento ambiental válido das lavouras da Jayoro em julho deste ano - mas, como a procuradora responsável pelo processo entrou em licença maternidade, não houve ainda oferta de denúncia à Justiça nem tentativa de se firmar um TAC com a empresa.
A agropecuária caiu na mira do MPF no ano passado, quando o órgão abriu um procedimento administrativo para investigar denúncias de que os agrotóxicos utilizados pela Jayoro estariam contaminando igarapés e prejudicando agricultores familiares do entorno. Em 2008, o Ipaam informou aos procuradores que o empreendimento estava cumprindo todas as exigência legais. No início deste ano, porém, quando o MPF oficiou o órgão estadual para que ele enviasse os laudos de análises dos cursos d´água utilizados pelos agricultores em questão, obteve como resposta (em maio) que a renovação da licença da Jayoro estava em análise. Dois meses depois, o Ipaam enviou um parecer informando que a licença não havia sido renovada.
Antigo projeto, novos investidores
O desmatamento na Agropecuária Jayoro ocorreu há mais de 30 anos, no início dos anos 70. A usina nasceu no contexto do Pró-Álcool, com apoio da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), mas logo entrou em decadência. Em 1995, quando o empreendimento foi retomado, com novos investidores (entre eles a Coca-Cola). Eram apenas 300 hectares de canaviais destinados à produção de pinga.
"Hoje 70% de nossa cana vai para produção de açúcar e o restante para etanol, com uma média de 8 milhões de litros por ano, que é a capacidade máxima da nossa destilaria", informa o superintendente da Jayoro. Esse combustível é vendido para pequenas distribuidoras (como a Atem´s e a Distribuidora Nacional de Petróleo - DNP), que atuam no mercado local. "Para eles, somos uma garantia de regularidade no fornecimento quando atrasa a balsa [que traz etanol do Centro-Sul do país]", afirma Waltair Prata.
Já a produção de açúcar, além de atender a Recofarma - empresa do Grupo Coca-Cola, que produz o concentrado do refrigerante nca capital Manaus (AM) -, é vendida para pequenos empacotadores da capital amazonense. "Atendemos cerca de 10% da demanda local de açúcar, apenas. Os maiores fornecedores da região são usinas do Mato Grosso, como a Imarati e a Jaciara", detalha o superintendente da Agropecuária Jayoro.
O guaraná, com o qual se produz o concentrado do refrigerante Kuat, também se destina à Recofarma. "Até o momento, temos vendido o guaraná em xarope", revela Waltair, "mas estamos iniciando o processamento em pó, que facilita a exportação para Atlanta [nos EUA, sede mundial da Coca-Cola]. Isso também nos possibilita alcançar novos mercados, como o da cosmética".
Boas práticas
José Mauro, diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, ressalta que a empresa "audita regularmente" seus fornecedores, avaliando principalmente suas práticas ambientais e trabalhistas. "Se algum aspecto for contraditório, é necessário um plano de ajustamento", declarou o executivo. Questionado sobre se essas auditorias periódicas já apontaram problemas na Agropecuária Jayoro, ele pondera que "correções" fazem parte do processo industrial. "Irregularidades ocorrem em qualquer local. Sempre há motivos para planos de correção. Se você vier ao prédio da Coca-Cola no Rio de Janeiro, agora, vai encontrar problemas", provoca o executivo.
O superintendente da Jayoro confirma que a Coca-Cola, mais do que os órgãos governamentais, pressiona pela adoção de boas práticas ambientais e trabalhistas. "Com o incentivo dela, estamos em processo de certificação ISO 14000", revela Waltair. O ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.
Entre as chamadas tecnologias limpas já adotadas pela Jayoro, está a canalização e pulverização do vinhoto (líquido resultante da produção de etanol, altamente poluente) nos canaviais, servindo como adubo complementar. Há também o aproveitamento do bagaço da cana na geração de energia elétrica. "Nesta safra, inauguramos um novo turbo gerador de 5 megawatts, que consome menos bagaço e produz mais energia que o anterior. Nossa moagem terminou no dia 29 de setembro, mas conseguimos abastecer a agropecuária com energia própria até o dia 24 de outubro, e ainda estocamos um tanto de bagaço para a próxima safra", comemora o superintendente.
Relações trabalhistas
O quadro fixo de funcionários da Jayoro é de 650 pessoas, mas na safra esse número chega a 980 trabalhadores. Na retomada, em 1995, 70% dos cortadores de cana eram trazidos do Maranhão, em aviões fretados. Hoje, os migrantes são apenas 10% e boa parte da colheita (40%) é mecanizada.
"Quando fui contratado pela Jayoro, em 1999, a produtividade média diária de cada cortador era de 4,8 toneladas de cana. Hoje já subiu para 6,7 toneladas", orgulha-se Waltair. "Para aumentá-la, a gente contratou os cortadores mais produtivos e com menos acidentes como instrutores dos demais. Durante duas safras, eles ganharam para ficar andando pelos canaviais, dando dicas aos colegas", gaba-se o superintendente.
Outra estratégia adotada pela empresa é o sorteio anual de uma passagem aérea ao Nordeste, com direito a acompanhante, entre os membros da equipe recordista de dias livres de acidentes de trabalho. Todos os funcionários participam do concurso, inclusive os da área industrial.
"A maior dificuldade que enfrentei foi pegar esses agricultores, que só estão acostumados a plantar mandioca, a caçar de manhã para colher à noite, e treiná-los", afirma o diretor da Agropecuária Jayoro, Eduardo Camillo, que mora em São Paulo (SP). "Quando cheguei a Presidente Figueiredo, mandei derrubar os barracões nos quais se alojavam os cortadores e ordenei que construíssem alojamentos. Logo que entrei para o empreendimento, eu fiz questão de declarar que ali não iríamos ter bóias-frias", destaca.
Os auditores fiscais do trabalho Rômulo Machado e Silva e Klênio Fábio Gomes Lima, da área de Segurança e Medicina, estiveram neste ano na Jayoro. "A agropecuária sempre entra na nossa agenda de fiscalização. A condição geral dela é boa, os trabalhadores usam EPIs [equipamentos de proteção individual], há banheiro na lavoura, a comida é razoável", comenta Rômulo.
Klênio, que fiscalizou a empresa pelo terceiro ano consecutivo, concorda com a avaliação positiva. Ele ressalta que a Jayoro tem se adequado às notificações feitas pelos auditores fiscais e citou como exemplos a inserção de cinto de segurança no ônibus que faz o transporte dos trabalhadores, a remodelagem do facão utilizado no corte manual da cana (para evitar acidentes) e a construção de local apropriado para refeições nas frentes de trabalho.
O chefe da fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Amazonas (SRTE/AM), Francisco Edson Rebouças, lembra, porém, que o corte manual da cana é extenuante sob qualquer condição climática, mas ainda pior no calor e umidade da região. "Não é possível que um trabalhador esteja feliz cortando cana sob o sol de 40ºC do Amazonas".
Em setembro, outra equipe de auditores da SRTE esteve na empresa e aplicou cinco autos de infração. Os funcionários faziam mais que duas horas-extras diárias permitidas por lei; as horas-extras eram pagas ou compensadas, mas não registradas integralmente no cartão de ponto; o período de pagamento ou compensação das horas-extras, às vezes, excedia o prazo legal de um ano; e o tempo de deslocamento dos trabalhadores até a empresa não entrava na contagem da jornada de trabalho. Houve atraso nos salários.
Fonte: www. mst.org.br
O Amazonas possui somente uma usina de açúcar e etanol atualmente em funcionamento: a Agropecuária Jayoro, no município de Presidente Figueiredo (AM). Caso o Projeto de Lei do Zoneamento Agroecológico (ZAE) da Cana seja aprovado conforme proposto pelo governo federal - com proibição de novas usinas na Amazônia -, o empreendimento continuará sendo o único do Estado.
Apesar da produção relativamente pequena (são em média 18 mil toneladas por ano), o açúcar da Jayoro chega indiretamente a todo o país e também é exportado para Colômbia, Venezuela e Paraguai. Isso porque como ele é feito, em Manaus (AM), o caramelo que dá sabor à misteriosa fórmula do concentrado de Coca-Cola distribuído para todas as fábricas de produção e engarrafamento do refrigerante no Brasil e nos três países vizinhos.
Considerada uma usina modelo pelo diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, José Mauro de Moraes, a Agropecuária Jayoro está funcionando em 2009 sem ter obtido a renovação anual da licença ambiental dos seus 4 mil hectares de canaviais e de seus 400 hectares de pés de guaraná junto ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão ambiental estadual. Apesar disso, conseguiu renovar as licenças ambientais das unidades industriais de produção de açúcar e etanol e de processamento do guaraná.
A não renovação da licença das lavouras é motivada por irregularidades fundiárias que afetam a averbação da Reserva Legal (80% na Amazônia), segundo Eduardo Costa, analista ambiental do Ipaam. A área ocupada pela Jayoro tem 59 mil hectares, dos quais apenas 13% estão desmatados (4,4 mil hectares com plantações de cana e guaraná; 600 hectares com estradas e construções e 2,67 mil hectares com pastagem degradada).
Poderia ser um bom exemplo de cumprimento da legislação ambiental, mas, formalmente, esses 59 mil hectares são a soma da área de 17 imóveis rurais. A maioria dessas propriedades são terras públicas ocupadas ilegalmente ou áreas tituladas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) há menos de 10 anos (período no qual o posseiro com título não pode vender nem arrendar a terra). "Para considerar a averbação da Reserva Legal de forma conjunta, considerando a área total de 59 mil hextares, a agropecuária precisa resolver a questão fundiária", explica o analista.
"A questão fundiária é um problema antigo da região amazônica. A Jayoro já tem um plano para trabalhar esse problema. Consideramos essa uma não-conformidade que pode ser solucionada", rebateu José Mauro, diretor da Coca-Cola Brasil. "Quando obtivemos nossa licença de operação, o Ipaam não questionou a regularidade da documentação fundiária que apresentamos. Se tivesse nos alertado antes sobre a necessidade de ajustes, isso já estaria resolvido", argumenta o superintendente da Jayoro, Waltair Prata.
Waltair acrescenta que a empresa já enviou ao Ipaam os títulos dos seis imóveis rurais em nome da empresa e que, para as demais áreas, haverá um processo de licenciamento ambiental individualizado, a ser solicitado pelos próprios posseiros quando eles obtiverem os títulos definitivos do Incra.
De acordo com o chefe da unidade avançada do Incra em Presidente Figueiredo (AM), Alfredo Nonato, a regularização fundiária dessas áreas pode acontecer ainda este ano, dentro do Programa Terra Legal - criado com objetivo de simplificar e agilizar o rito de titulação de terras públicas (que hoje demora cerca de cinco anos), mas marcado por críticas de figuras públicas e de setores da sociedade civil. A meta do programa, lançando pelo presidente Lula em junho deste ano, é regularizar em até três anos 296,8 mil posses de até 15 módulos fiscais ocupados antes de 1º de dezembro de 2004 na região amazônica. Desses, cerca de 58,5 mil estão no Amazonas.
Sobre o fato de o governo estadual só agora estar cobrando da Jayoro a regularização fundiária do empreendimento, a diretora-geral do Ipaam, Aldenira Queiroz, justifica que "a administração pública pode a qualquer momento rever seus atos". Ela explica que apenas há dois anos o órgão passou a contar com dados precisos de georreferenciamento das áreas alvo de monitoramento ambiental e que foi a partir de então que os fiscais perceberam que "a empresa incorporou terras além das que ela possuía". Em 2007 e 2008, a licença ambiental das lavouras da Jayoro foi renovada graças à assinatura de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ipaam.
"Além da questão fundiária, outra cláusula ainda não cumprida pela empresa diz respeito à criação de uma unidade de conservação. Por isto, neste ano, a licença está suspensa", sustenta a diretora-geral. O superintendente da Jayoro revelou que há quatro meses apresentou ao Centro Estadual de Unidades de Conservação do Amazonas o pedido de criação de uma Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável. No projeto, há duas áreas em estudo: uma com 334 hectares e outra com 304 hectares de extensão.
O Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) tomou ciência da falta de licenciamento ambiental válido das lavouras da Jayoro em julho deste ano - mas, como a procuradora responsável pelo processo entrou em licença maternidade, não houve ainda oferta de denúncia à Justiça nem tentativa de se firmar um TAC com a empresa.
A agropecuária caiu na mira do MPF no ano passado, quando o órgão abriu um procedimento administrativo para investigar denúncias de que os agrotóxicos utilizados pela Jayoro estariam contaminando igarapés e prejudicando agricultores familiares do entorno. Em 2008, o Ipaam informou aos procuradores que o empreendimento estava cumprindo todas as exigência legais. No início deste ano, porém, quando o MPF oficiou o órgão estadual para que ele enviasse os laudos de análises dos cursos d´água utilizados pelos agricultores em questão, obteve como resposta (em maio) que a renovação da licença da Jayoro estava em análise. Dois meses depois, o Ipaam enviou um parecer informando que a licença não havia sido renovada.
Antigo projeto, novos investidores
O desmatamento na Agropecuária Jayoro ocorreu há mais de 30 anos, no início dos anos 70. A usina nasceu no contexto do Pró-Álcool, com apoio da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), mas logo entrou em decadência. Em 1995, quando o empreendimento foi retomado, com novos investidores (entre eles a Coca-Cola). Eram apenas 300 hectares de canaviais destinados à produção de pinga.
"Hoje 70% de nossa cana vai para produção de açúcar e o restante para etanol, com uma média de 8 milhões de litros por ano, que é a capacidade máxima da nossa destilaria", informa o superintendente da Jayoro. Esse combustível é vendido para pequenas distribuidoras (como a Atem´s e a Distribuidora Nacional de Petróleo - DNP), que atuam no mercado local. "Para eles, somos uma garantia de regularidade no fornecimento quando atrasa a balsa [que traz etanol do Centro-Sul do país]", afirma Waltair Prata.
Já a produção de açúcar, além de atender a Recofarma - empresa do Grupo Coca-Cola, que produz o concentrado do refrigerante nca capital Manaus (AM) -, é vendida para pequenos empacotadores da capital amazonense. "Atendemos cerca de 10% da demanda local de açúcar, apenas. Os maiores fornecedores da região são usinas do Mato Grosso, como a Imarati e a Jaciara", detalha o superintendente da Agropecuária Jayoro.
O guaraná, com o qual se produz o concentrado do refrigerante Kuat, também se destina à Recofarma. "Até o momento, temos vendido o guaraná em xarope", revela Waltair, "mas estamos iniciando o processamento em pó, que facilita a exportação para Atlanta [nos EUA, sede mundial da Coca-Cola]. Isso também nos possibilita alcançar novos mercados, como o da cosmética".
Boas práticas
José Mauro, diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, ressalta que a empresa "audita regularmente" seus fornecedores, avaliando principalmente suas práticas ambientais e trabalhistas. "Se algum aspecto for contraditório, é necessário um plano de ajustamento", declarou o executivo. Questionado sobre se essas auditorias periódicas já apontaram problemas na Agropecuária Jayoro, ele pondera que "correções" fazem parte do processo industrial. "Irregularidades ocorrem em qualquer local. Sempre há motivos para planos de correção. Se você vier ao prédio da Coca-Cola no Rio de Janeiro, agora, vai encontrar problemas", provoca o executivo.
O superintendente da Jayoro confirma que a Coca-Cola, mais do que os órgãos governamentais, pressiona pela adoção de boas práticas ambientais e trabalhistas. "Com o incentivo dela, estamos em processo de certificação ISO 14000", revela Waltair. O ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.
Entre as chamadas tecnologias limpas já adotadas pela Jayoro, está a canalização e pulverização do vinhoto (líquido resultante da produção de etanol, altamente poluente) nos canaviais, servindo como adubo complementar. Há também o aproveitamento do bagaço da cana na geração de energia elétrica. "Nesta safra, inauguramos um novo turbo gerador de 5 megawatts, que consome menos bagaço e produz mais energia que o anterior. Nossa moagem terminou no dia 29 de setembro, mas conseguimos abastecer a agropecuária com energia própria até o dia 24 de outubro, e ainda estocamos um tanto de bagaço para a próxima safra", comemora o superintendente.
Relações trabalhistas
O quadro fixo de funcionários da Jayoro é de 650 pessoas, mas na safra esse número chega a 980 trabalhadores. Na retomada, em 1995, 70% dos cortadores de cana eram trazidos do Maranhão, em aviões fretados. Hoje, os migrantes são apenas 10% e boa parte da colheita (40%) é mecanizada.
"Quando fui contratado pela Jayoro, em 1999, a produtividade média diária de cada cortador era de 4,8 toneladas de cana. Hoje já subiu para 6,7 toneladas", orgulha-se Waltair. "Para aumentá-la, a gente contratou os cortadores mais produtivos e com menos acidentes como instrutores dos demais. Durante duas safras, eles ganharam para ficar andando pelos canaviais, dando dicas aos colegas", gaba-se o superintendente.
Outra estratégia adotada pela empresa é o sorteio anual de uma passagem aérea ao Nordeste, com direito a acompanhante, entre os membros da equipe recordista de dias livres de acidentes de trabalho. Todos os funcionários participam do concurso, inclusive os da área industrial.
"A maior dificuldade que enfrentei foi pegar esses agricultores, que só estão acostumados a plantar mandioca, a caçar de manhã para colher à noite, e treiná-los", afirma o diretor da Agropecuária Jayoro, Eduardo Camillo, que mora em São Paulo (SP). "Quando cheguei a Presidente Figueiredo, mandei derrubar os barracões nos quais se alojavam os cortadores e ordenei que construíssem alojamentos. Logo que entrei para o empreendimento, eu fiz questão de declarar que ali não iríamos ter bóias-frias", destaca.
Os auditores fiscais do trabalho Rômulo Machado e Silva e Klênio Fábio Gomes Lima, da área de Segurança e Medicina, estiveram neste ano na Jayoro. "A agropecuária sempre entra na nossa agenda de fiscalização. A condição geral dela é boa, os trabalhadores usam EPIs [equipamentos de proteção individual], há banheiro na lavoura, a comida é razoável", comenta Rômulo.
Klênio, que fiscalizou a empresa pelo terceiro ano consecutivo, concorda com a avaliação positiva. Ele ressalta que a Jayoro tem se adequado às notificações feitas pelos auditores fiscais e citou como exemplos a inserção de cinto de segurança no ônibus que faz o transporte dos trabalhadores, a remodelagem do facão utilizado no corte manual da cana (para evitar acidentes) e a construção de local apropriado para refeições nas frentes de trabalho.
O chefe da fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Amazonas (SRTE/AM), Francisco Edson Rebouças, lembra, porém, que o corte manual da cana é extenuante sob qualquer condição climática, mas ainda pior no calor e umidade da região. "Não é possível que um trabalhador esteja feliz cortando cana sob o sol de 40ºC do Amazonas".
Em setembro, outra equipe de auditores da SRTE esteve na empresa e aplicou cinco autos de infração. Os funcionários faziam mais que duas horas-extras diárias permitidas por lei; as horas-extras eram pagas ou compensadas, mas não registradas integralmente no cartão de ponto; o período de pagamento ou compensação das horas-extras, às vezes, excedia o prazo legal de um ano; e o tempo de deslocamento dos trabalhadores até a empresa não entrava na contagem da jornada de trabalho. Houve atraso nos salários.
Fonte: www. mst.org.br
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Marighella após 40 anos de sua morte ganhou o título de cidadão paulistano

Por: Tayse Falcão
Carlos Marighella nasceu na Bahia e ficou conhecido em todo o País pela luta contra a ditadura militar criada em 1964. Nesta última quarta-feira (4/11), fez exatos 40 anos após a sua morte trágica que ofuscou a trajetória de sua vida, ele ganhou o título de cidadão paulistano in memoriam da Câmara Municipal dos Vereadores.
O ex-deputado Marighella, Comunista constituinte e fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN), tiveram os 40 anos da sua morte lembrados em todo país. Morto pelas forças repressoras numa emboscada no dia 4 de novembro de 1969 em São Paulo. Guiado pela convicção na justiça social – e sob a bandeira do socialismo – o brasileiro Carlos Marighella procurou transformar de forma radical a realidade sócio-econômica do Brasil.
O assassinato de Marighella foi contado recentemente no filme ‘Batismo de Sangue’ (2006), de Helvécio Ratton, que é uma adaptação de livro de memórias de Frei Betto.
“O Marighella dos primeiros anos fora tragado no tempo e o ‘último Marighella’ acabou sendo mal conhecido no conjunto de sua produção teórica. Ele percorreu o caminho da disciplina, mas evoluiu na onda de rebelião contra os métodos de direção do PCB. Nas duas etapas, ligadas entre si, a aquisição de experiência política legal e clandestina e o florescimento autônomo da prática revolucionária fervem no horizonte intelectual de um combatente ardoroso.”
“Na outra ponta, o retraimento da direção do PCB exigia um ataque análogo. Nunca, antes, seus críticos chegaram tão longe ou foram tão inventivos. Nem mesmo os trotskistas faziam-lhe sombra, porque sua cisão mais importante trazia a marca de um paradigma teórico e prático também importado. Carlos Marighella alargou a teoria, para que nela coubessem as crueldades sofridas pelos de baixo; e estendeu a prática, incluindo nela coerência e firmeza. Porta-se com equilíbrio, ficando rente aos questionamentos essenciais.”
Fonte: Trechos extraídos de “A Contestação Necessária – Retratos Intelectuais de Inconformistas e Revolucionários”, coletânea de artigos e ensaios inéditos de Florestan Fernandes, publicada pela Editora Ática.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Pai da Antropologia Moderna morre aos 100 anos

Por: Tayse Falcão – estudante de Jornalismo
O antropólogo e etnólogo Claude Lévi-Strauss, que morreu na madrugada do domingo (1/11), tendo a notícia confirmada ontem pela Academia Francesa, deixou um legado importante para as ciências humanas e para pesquisadores de todo o mundo. Considerado o Pai da Antropologia Moderna, Lévi-Strauss contribuiu de forma decisiva para o estabelecimento do estudo moderno das relações entre os homens e da cultura humana.
Parte desse legado foi construído no Brasil. Viveu no Brasil entre 1935 e 1939, realizando pesquisas junto a tribos indígenas e lecionando na então recém-criada Universidade de São Paulo (USP), da qual recebeu o título de Doutor Honoris Causa. Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso “Tristes Trópicos”.
Em suas pesquisas aqui no Brasil, Lévi-Strauss conduziu projetos etnográficos no Mato Grosso e Amazônia. Viveu entre os índios gaycuru e bororo, mas foi sua experiência entre os nambikwara e tupi-kawahib que consolidou sua identidade como antropólogo. As expedições estão registradas no livro Tristes Trópicos (1955), uma autobiografia intelectual do autor.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Onu contabiliza 200 milhões de famintos no mundo
Mais de 200 milhões de pessoas começaram a passar fome nos últimos dois anos. Esse é o total contabilizado pela Organização das Nações Unidas (Onu) e divulgado, ontem (26/10), na Austrália.
Ao mesmo tempo, a maioria dos países em desenvolvimento está pagando mais por comida, apesar das quedas registradas no mercado de commodities durante a crise econômica mundial.
A diretora executiva da agência, Josette Sheeran, citou as mudanças climáticas, o aumento dos preços dos combustíveis e a queda de renda pela situação. Ela disse que o número de “famintos em situação de emergência” atingiu agora o nível mais alto, de 1,02 bilhão de pessoas.
Para Sheeran, uma em cada seis pessoas vai acordar sem ter certeza de que poderá encher uma xícara de comida. “A fome está em marcha”. Ela informou que, enquanto os preços caíram nos mercados globais de commodities por causa da crise financeira, o preço subiu na maioria dos alimentos nos países em desenvolvimento.
“A crise alimentar não acabou. Temos uma anomalia acontecendo. Nos grandes mercados globais, os preços estão baixos, mas 80% das commodities no mundo em desenvolvimento têm preços mais altos hoje do que estavam um ano atrás, e os preços de um ano atrás eram duas vezes maiores do que antes”, afirmou.
Fonte: www.paulorubem.com.br /Texto: Andréa Pessoa , com informações da Agência Estado.
Ao mesmo tempo, a maioria dos países em desenvolvimento está pagando mais por comida, apesar das quedas registradas no mercado de commodities durante a crise econômica mundial.
A diretora executiva da agência, Josette Sheeran, citou as mudanças climáticas, o aumento dos preços dos combustíveis e a queda de renda pela situação. Ela disse que o número de “famintos em situação de emergência” atingiu agora o nível mais alto, de 1,02 bilhão de pessoas.
Para Sheeran, uma em cada seis pessoas vai acordar sem ter certeza de que poderá encher uma xícara de comida. “A fome está em marcha”. Ela informou que, enquanto os preços caíram nos mercados globais de commodities por causa da crise financeira, o preço subiu na maioria dos alimentos nos países em desenvolvimento.
“A crise alimentar não acabou. Temos uma anomalia acontecendo. Nos grandes mercados globais, os preços estão baixos, mas 80% das commodities no mundo em desenvolvimento têm preços mais altos hoje do que estavam um ano atrás, e os preços de um ano atrás eram duas vezes maiores do que antes”, afirmou.
Fonte: www.paulorubem.com.br /Texto: Andréa Pessoa , com informações da Agência Estado.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
CPI DO MST : Cinismo e conservadorismo na Câmara
Ao colher assinaturas para criar uma CPI destinada a investigar o MST, os ruralistas e seus agregados demonstram o quão são cínicos e conservadores.
Bradam em todos os jornais que é preciso investigar o MST pois o movimento recebe verbas federais.
Bem, as entidades legalmente organizadas para dar apoio e assessoria na organização da reforma agrária têm o legítimo e legal direito de defender que as receitas públicas sejam aplicadas para que se atinjam os objetivos definidos no artigo 3o. da Constituição Federal de 1988. Através da reforma agrária avança a luta contra a pobreza e o sub-desenvolvimento regional.
Os ruralistas querem investigar o MST mas não falam em investigar os bilionários contratos de crédito que empresários da elite rural brasileira tiveram há décadas com o Banco do Brasil, a SUDENE e os bancos estaduais, sobretudo os nordestinos, levando bilhões e bilhões e sempre buscando o apoio de sua base no Congresso para ter assegurada a ”renegociação” (nome educado) de suas dívidas nunca efetivamente apuradas.
Que o digam os R$ 150 milhões de reais que investigamos entre 1995 e 1998 nas contas de crédito do antigo BANDEPE, em Pernambuco, concedidos desde 1982 a usineiros e donos de destilarias, levados esses milhões à liquidação e prejuízo sem qualquer sanção aplicada pelo Banco Central aos tomadores desses crédito nem aos antigos gestores do banco do estado de Pernambuco. Idem para o PRODUBAN, de Alagoas, PARAIBAN, da Paraíba , entre outros.
Na verdade os ruralistas usam seu poder de fogo no Congresso, inclusive por estarem na “base aliada ” do Governo Lula , para impedir o avanço da luta pela reforma agrária.
Para eles o país deve se manter por décadas e décadas como exportador de produtos primários, financiando-se a produção e a exportação com dinheiro público subsidiado, em nome da balança comercial brasileira. Para eles os milhões de hectares desmatados na Amazônia, o trabalho escravo, a escolarização precária e o analfabetismo no meio rural são uma espécie de “insumo”, ou “ônus” que o País deve aceitar pelo “desenvolvimento” que eles trouxeram para o país.
Até um dia desses crianças acordavam às quatro da manhã e iam para o corte da cana, em milhares de engenhos no nordeste, aos seis, sete, oito anos de idade, enquanto os filhos dessa elite estudavam nas melhores escolas privadas das capitais Maceió, Recife e João Pessoa, muitos seguindo para estudos de nível médio na Europa e nos Estados Unidos, por lá ficando para a conclusão de seus “estudos” superiores. Cotidianamente as forças tarefas do Ministério do Trabalho, da Procuradoria do Trabalho, com a Polícia Federal, encontram e libertam trabalhadores em condições análogas à escravidão, em fazendas, usinas e outras propriedades rurais pelo País afora.
Isso, porém, não foi suficiente para impedir que fiscais do trabalho fossem assassinados por capangas atuando a mando de fazendeiros, em Unaí, Minas Gerais, anos atrás.
Por que será, senão por essa herança trágica, que a imensa maiora das cidades nordestinas que dependeram, por séculos, da economia canavieira tinham e ainda apresentam os piores indicadores sociais e humanos (IDH ) ? Coincidência ?
Na ocupação ocorrida em 2002 na Usina Aliança, em Pernambuco, que acompanhamos como Deputado Estadual, foram encontradas fotos de trabalhadores mortos, arquivadas nas gavetas dos móveis do escritório da Casa Grande da Usina, numa espécie de “prova” ( ou terá sido confirmação de ordens que haviam sido dadas ? ) do que fora feito contra esses trabalhadores.
Um agricultor de uma dessas fotos foi reconhecido, quase 40 anos depois, por uma de suas irmãs que disse ter o mesmo saído de casa, poucos dias depois do golpe de 1964, para reivindicar pagamentos atrasados na Usina e nunca mais ter voltado para casa.
A CPI do MST não é uma CPI para servir ao País e ao interesse público. É uma CPI para derrotar a reforma agrária, para atacar as entidades e movimentos que lutam por um outro projeto de desenvolvimento para a nação através da reforma agrária e das políticas que lhe são associadas.
Os ruralistas criticam os métodos do MST e de outros movimentos e por isso querem a CPI, que na verdade não quer apurar nada, mas apenas criminalizar por antecipação a justa luta dessas entidades e movimentos sociais.
Os movimentos denunciam a grilagem de terras, as fraudes nos cartórios na Amazônia, a lentidão do governo federal em liberar recursos para acelerar a reforma agrária, a impunidade dos criminosos e mandantes nos assassinatos de sem-terra, de civis e dirigentes sindicais no campo há décadas e nada disso é devidamente analisado em nosso País, com mandantes e criminosos dormindo sossegados o sono da impunidade.
Por isso expressamos nossa solidariedade ao MST frente a essa tentativa de se impor uma CPI contra a reforma agrária.
Viva Chico Mendes, Viva Francisco Julião, Viva Gregório Bezerra, Viva Margarida Maria Alves,Viva Irmã Dorothy !
Viva a luta pela reforma agrária, pela justiça social no campo brasileiro, viva a luta pela educação básica no campo, pela superação do analfabetismo secular e da mortalidade infantil, da baixa escolaridade das crianças e jovens no meio rural, vítimas das monoculturas, da ação das oligarquias, da falência e incompetência de um Estado que insiste em fazer de conta no tocante à promoção dessas políticas públicas emancipatórias, executando( em gastos públicos federais) gordos orçamentos para os juros e amortizações da dívida pública e quase imperceptíveis fatias das receitas públicas para a reforma agrária.
Vamos derrotar a CPI da criminalização, do atraso e das oligarquias da economia rural.
Postado em: www.paulorubem.com.br - Paulo Rubem (25.10.2009)
Bradam em todos os jornais que é preciso investigar o MST pois o movimento recebe verbas federais.
Bem, as entidades legalmente organizadas para dar apoio e assessoria na organização da reforma agrária têm o legítimo e legal direito de defender que as receitas públicas sejam aplicadas para que se atinjam os objetivos definidos no artigo 3o. da Constituição Federal de 1988. Através da reforma agrária avança a luta contra a pobreza e o sub-desenvolvimento regional.
Os ruralistas querem investigar o MST mas não falam em investigar os bilionários contratos de crédito que empresários da elite rural brasileira tiveram há décadas com o Banco do Brasil, a SUDENE e os bancos estaduais, sobretudo os nordestinos, levando bilhões e bilhões e sempre buscando o apoio de sua base no Congresso para ter assegurada a ”renegociação” (nome educado) de suas dívidas nunca efetivamente apuradas.
Que o digam os R$ 150 milhões de reais que investigamos entre 1995 e 1998 nas contas de crédito do antigo BANDEPE, em Pernambuco, concedidos desde 1982 a usineiros e donos de destilarias, levados esses milhões à liquidação e prejuízo sem qualquer sanção aplicada pelo Banco Central aos tomadores desses crédito nem aos antigos gestores do banco do estado de Pernambuco. Idem para o PRODUBAN, de Alagoas, PARAIBAN, da Paraíba , entre outros.
Na verdade os ruralistas usam seu poder de fogo no Congresso, inclusive por estarem na “base aliada ” do Governo Lula , para impedir o avanço da luta pela reforma agrária.
Para eles o país deve se manter por décadas e décadas como exportador de produtos primários, financiando-se a produção e a exportação com dinheiro público subsidiado, em nome da balança comercial brasileira. Para eles os milhões de hectares desmatados na Amazônia, o trabalho escravo, a escolarização precária e o analfabetismo no meio rural são uma espécie de “insumo”, ou “ônus” que o País deve aceitar pelo “desenvolvimento” que eles trouxeram para o país.
Até um dia desses crianças acordavam às quatro da manhã e iam para o corte da cana, em milhares de engenhos no nordeste, aos seis, sete, oito anos de idade, enquanto os filhos dessa elite estudavam nas melhores escolas privadas das capitais Maceió, Recife e João Pessoa, muitos seguindo para estudos de nível médio na Europa e nos Estados Unidos, por lá ficando para a conclusão de seus “estudos” superiores. Cotidianamente as forças tarefas do Ministério do Trabalho, da Procuradoria do Trabalho, com a Polícia Federal, encontram e libertam trabalhadores em condições análogas à escravidão, em fazendas, usinas e outras propriedades rurais pelo País afora.
Isso, porém, não foi suficiente para impedir que fiscais do trabalho fossem assassinados por capangas atuando a mando de fazendeiros, em Unaí, Minas Gerais, anos atrás.
Por que será, senão por essa herança trágica, que a imensa maiora das cidades nordestinas que dependeram, por séculos, da economia canavieira tinham e ainda apresentam os piores indicadores sociais e humanos (IDH ) ? Coincidência ?
Na ocupação ocorrida em 2002 na Usina Aliança, em Pernambuco, que acompanhamos como Deputado Estadual, foram encontradas fotos de trabalhadores mortos, arquivadas nas gavetas dos móveis do escritório da Casa Grande da Usina, numa espécie de “prova” ( ou terá sido confirmação de ordens que haviam sido dadas ? ) do que fora feito contra esses trabalhadores.
Um agricultor de uma dessas fotos foi reconhecido, quase 40 anos depois, por uma de suas irmãs que disse ter o mesmo saído de casa, poucos dias depois do golpe de 1964, para reivindicar pagamentos atrasados na Usina e nunca mais ter voltado para casa.
A CPI do MST não é uma CPI para servir ao País e ao interesse público. É uma CPI para derrotar a reforma agrária, para atacar as entidades e movimentos que lutam por um outro projeto de desenvolvimento para a nação através da reforma agrária e das políticas que lhe são associadas.
Os ruralistas criticam os métodos do MST e de outros movimentos e por isso querem a CPI, que na verdade não quer apurar nada, mas apenas criminalizar por antecipação a justa luta dessas entidades e movimentos sociais.
Os movimentos denunciam a grilagem de terras, as fraudes nos cartórios na Amazônia, a lentidão do governo federal em liberar recursos para acelerar a reforma agrária, a impunidade dos criminosos e mandantes nos assassinatos de sem-terra, de civis e dirigentes sindicais no campo há décadas e nada disso é devidamente analisado em nosso País, com mandantes e criminosos dormindo sossegados o sono da impunidade.
Por isso expressamos nossa solidariedade ao MST frente a essa tentativa de se impor uma CPI contra a reforma agrária.
Viva Chico Mendes, Viva Francisco Julião, Viva Gregório Bezerra, Viva Margarida Maria Alves,Viva Irmã Dorothy !
Viva a luta pela reforma agrária, pela justiça social no campo brasileiro, viva a luta pela educação básica no campo, pela superação do analfabetismo secular e da mortalidade infantil, da baixa escolaridade das crianças e jovens no meio rural, vítimas das monoculturas, da ação das oligarquias, da falência e incompetência de um Estado que insiste em fazer de conta no tocante à promoção dessas políticas públicas emancipatórias, executando( em gastos públicos federais) gordos orçamentos para os juros e amortizações da dívida pública e quase imperceptíveis fatias das receitas públicas para a reforma agrária.
Vamos derrotar a CPI da criminalização, do atraso e das oligarquias da economia rural.
Postado em: www.paulorubem.com.br - Paulo Rubem (25.10.2009)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
O singular e o plural
O Brasil venceu os EUA, a Espanha e o Japão na disputa pela sede das Olimpíadas. Na final, o Rio de Janeiro derrotou Madri por 66 votos a 32. Os maiores vencedores até agora foram o presidente Lula, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes. Mas há outros assuntos em pauta, naturalmente.
Barack Obama já dissera de Lula que ele "é o cara". A Espanha de Zapatero resmungou um pouco. El País resumiu em manchete: "Madrid 2016: adiós al sueño olímpico". E os que lêem o jornal na internet constataram que frases de Lula traduzidas para o espanhol até melhoram de sabor na língua-irmã, afinal nosso pai ou mãe comum é o latim: "Brasil tiene alma, corazón", disse nosso presidente.
Se dissesse isso cantando, a passos de dança, acompanhado de um bandoneón, a declaração soaria como um verso de um tango de Carlos Gardel.
El País, dispensando tradução para ser entendido, reportou também que Lula disse mais:
"Hemos recibido nuestro carnet de identidad como ciudadanos respetados del mundo." E, citando O Globo, acrescentou: "`Es el fin de nuestro complejo de perros callejeros´, escribió ayer uno de los más importantes analistas políticos, Merval Pereira." Boa tradução para "complexo de cães vira-latas". A expressão foi criada por Nelson Rodrigues em 1958.
"Recebeu o echtrato e deu para a revichta"
Quanto à derrota do Japão, nosso maioral saiu-se com esta: "O Japão muda tanto de primeiro-ministro que a gente dá bom-dia para um e boa-noite para outro". Foi, no mínimo, uma declaração deselegante, mas a mídia internacional estendeu sobre ele o manto redentor de todas as misericórdias.
Enquanto isso, na revista Piauí (ano IV, outubro de 2009) que chegava às bancas, os assuntos eram outros, com destaque para o sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT e anticandidato a reitor da USP, dizendo cobras e lagartos de Lula no artigo "O Avesso do avesso", contudo rendendo-se, ao final, ainda que indignado:
"Mas agora é tarde: Obama sentenciou que `ele é o cara´ e todo o mundo o vê assim. O lulismo é uma regressão política, a vanguarda do atraso e o atraso da vanguarda."
Em outra matéria, cujo tema é o julgamento da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, este comenta o português do STF:
"É uma fala assim meio complicada, fala bonita, da Europa, do século passado. Advogado de pobre fala piauiense mesmo. É nesse sentido que advogado de rico e de pobre são diferentes: o de rico é mais falado, bota sempre uma coisa internacional no meio, o sim nunca é sim, o não nunca é não."
Um dos ministros do STF, que, aliás, votou a favor do caseiro, o carioca Marco Aurélio Mello, foi arremedado pelo favorecido: "Fala com muito ch: o minichtro Palochi recebeu o echtrato e deu para a revichta."
Plural ou singular?
Temas e problemas não faltam na mídia para quem ensina a norma culta da língua portuguesa à luz de suas deslumbrantes variações.
Na escolha do Brasil para as Olimpíadas, eis outra boa amostra:
"Prefeito do Rio de Janeiro, cidade escolhida nesta sexta-feira como sede das Olimpíadas de 2016, Eduardo Paes acredita que a realização do evento daqui a sete anos iniciará um novo capítulo na história do município."
O redator usou, portanto, o plural. Mas o prefeito começou com o singular: "Estou muito feliz com a escolha. Esta Olimpíada vai ser um ponto de virada na história do Rio de Janeiro". Em seguida, optou pelo plural: "As Olimpíadas serão de todos os brasileiros".
No domingo (4/10), em entrevista a O Globo (pág. 4), ele continuou com o plural: "Tudo aquilo que se referir a gastos voltados para as Olimpíadas será lançado na internet para a prefeitura acompanhar". E voltou ao singular algumas perguntas adiante: "A prefeitura não vai ter a petulância e a arrogância de fazer a Olimpíada sozinha". E na mesma resposta voltou ao plural:
"A prefeitura precisa do governo federal e do governo estadual para fazer as Olimpíadas de maneira adequada". Retornou ao singular nesta sequência: "E a Olimpíada não pode ser um problema para a cidade". E a seguir emendou no plural: "Em razão da vitória nas Olimpíadas, a gente deve lançar um conjunto importante de mudanças".
Outros temíveis adversários
A democracia é plural. Lula não a entende assim, a não ser quando a seu favor. Por isso, estranhou tanto a troca de primeiro-ministro no Japão. Mas seu primeiro-ministro, José Dirceu, foi trocado no episódio do mensalão. E sua sucessora, Dilma Rousseff, é a candidata de Lula a sucedê-lo na presidência da República.
Assim, se tudo correr como ele quer, Dilma ganha em 2010 e, quando 2016 chegar, ele será de novo o presidente. Teremos abandonado de vez o plural.
Na mesma Piauí há uma interessante matéria de Daniela Pinheiro, com o mais sagaz perfil que alguém já fez de José Serra. O leitor poderá aprofundá-lo se ler dois textos preferidos do atual governador de São Paulo: o conto O Espelho, de Machado de Assis, e Fragmentos de um evangelho apócrifo, de Jorge Luís Borges, este último transcrito na reportagem, com a tradução de Josely Vianna Baptista.
O Brasil venceu. Contudo, mais do que vencer nas Olimpíadas, precisamos derrotar a violência, a pobreza, a doença, a corrupção e a falta de educação e de cultura, entre outros temíveis adversários.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Barack Obama já dissera de Lula que ele "é o cara". A Espanha de Zapatero resmungou um pouco. El País resumiu em manchete: "Madrid 2016: adiós al sueño olímpico". E os que lêem o jornal na internet constataram que frases de Lula traduzidas para o espanhol até melhoram de sabor na língua-irmã, afinal nosso pai ou mãe comum é o latim: "Brasil tiene alma, corazón", disse nosso presidente.
Se dissesse isso cantando, a passos de dança, acompanhado de um bandoneón, a declaração soaria como um verso de um tango de Carlos Gardel.
El País, dispensando tradução para ser entendido, reportou também que Lula disse mais:
"Hemos recibido nuestro carnet de identidad como ciudadanos respetados del mundo." E, citando O Globo, acrescentou: "`Es el fin de nuestro complejo de perros callejeros´, escribió ayer uno de los más importantes analistas políticos, Merval Pereira." Boa tradução para "complexo de cães vira-latas". A expressão foi criada por Nelson Rodrigues em 1958.
"Recebeu o echtrato e deu para a revichta"
Quanto à derrota do Japão, nosso maioral saiu-se com esta: "O Japão muda tanto de primeiro-ministro que a gente dá bom-dia para um e boa-noite para outro". Foi, no mínimo, uma declaração deselegante, mas a mídia internacional estendeu sobre ele o manto redentor de todas as misericórdias.
Enquanto isso, na revista Piauí (ano IV, outubro de 2009) que chegava às bancas, os assuntos eram outros, com destaque para o sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT e anticandidato a reitor da USP, dizendo cobras e lagartos de Lula no artigo "O Avesso do avesso", contudo rendendo-se, ao final, ainda que indignado:
"Mas agora é tarde: Obama sentenciou que `ele é o cara´ e todo o mundo o vê assim. O lulismo é uma regressão política, a vanguarda do atraso e o atraso da vanguarda."
Em outra matéria, cujo tema é o julgamento da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, este comenta o português do STF:
"É uma fala assim meio complicada, fala bonita, da Europa, do século passado. Advogado de pobre fala piauiense mesmo. É nesse sentido que advogado de rico e de pobre são diferentes: o de rico é mais falado, bota sempre uma coisa internacional no meio, o sim nunca é sim, o não nunca é não."
Um dos ministros do STF, que, aliás, votou a favor do caseiro, o carioca Marco Aurélio Mello, foi arremedado pelo favorecido: "Fala com muito ch: o minichtro Palochi recebeu o echtrato e deu para a revichta."
Plural ou singular?
Temas e problemas não faltam na mídia para quem ensina a norma culta da língua portuguesa à luz de suas deslumbrantes variações.
Na escolha do Brasil para as Olimpíadas, eis outra boa amostra:
"Prefeito do Rio de Janeiro, cidade escolhida nesta sexta-feira como sede das Olimpíadas de 2016, Eduardo Paes acredita que a realização do evento daqui a sete anos iniciará um novo capítulo na história do município."
O redator usou, portanto, o plural. Mas o prefeito começou com o singular: "Estou muito feliz com a escolha. Esta Olimpíada vai ser um ponto de virada na história do Rio de Janeiro". Em seguida, optou pelo plural: "As Olimpíadas serão de todos os brasileiros".
No domingo (4/10), em entrevista a O Globo (pág. 4), ele continuou com o plural: "Tudo aquilo que se referir a gastos voltados para as Olimpíadas será lançado na internet para a prefeitura acompanhar". E voltou ao singular algumas perguntas adiante: "A prefeitura não vai ter a petulância e a arrogância de fazer a Olimpíada sozinha". E na mesma resposta voltou ao plural:
"A prefeitura precisa do governo federal e do governo estadual para fazer as Olimpíadas de maneira adequada". Retornou ao singular nesta sequência: "E a Olimpíada não pode ser um problema para a cidade". E a seguir emendou no plural: "Em razão da vitória nas Olimpíadas, a gente deve lançar um conjunto importante de mudanças".
Outros temíveis adversários
A democracia é plural. Lula não a entende assim, a não ser quando a seu favor. Por isso, estranhou tanto a troca de primeiro-ministro no Japão. Mas seu primeiro-ministro, José Dirceu, foi trocado no episódio do mensalão. E sua sucessora, Dilma Rousseff, é a candidata de Lula a sucedê-lo na presidência da República.
Assim, se tudo correr como ele quer, Dilma ganha em 2010 e, quando 2016 chegar, ele será de novo o presidente. Teremos abandonado de vez o plural.
Na mesma Piauí há uma interessante matéria de Daniela Pinheiro, com o mais sagaz perfil que alguém já fez de José Serra. O leitor poderá aprofundá-lo se ler dois textos preferidos do atual governador de São Paulo: o conto O Espelho, de Machado de Assis, e Fragmentos de um evangelho apócrifo, de Jorge Luís Borges, este último transcrito na reportagem, com a tradução de Josely Vianna Baptista.
O Brasil venceu. Contudo, mais do que vencer nas Olimpíadas, precisamos derrotar a violência, a pobreza, a doença, a corrupção e a falta de educação e de cultura, entre outros temíveis adversários.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Disque Enem para matar
Mais parece filme de suspense. Em poucos dias desenhou-se uma trama complicada: provas do Enem roubadas, a busca de provas para saber se eram de fato provas roubadas, a improvável intenção de vender provas a jornalistas, o provável amadorismo dos criminosos, ou talvez mais provável ainda a sua esperteza em quererem passar por amadores...
Há questões ligadas ao sigilo, como explicou Eugênio Bucci. Há questões profissionais e éticas, como explicou Luiz Weis. Há também suposições de ordem política, conforme Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim.
A jornalista Renata Cafardo contou em seu blog detalhes do encontro com os criminosos, a sua consulta ao MEC e a decisão do ministro da Educação, Fernando Haddad, pelo cancelamento do exame que iria se realizar no fim de semana seguinte. Logo depois do episódio, Renata recebeu ameaças anônimas por telefone, conforme reportagem da Rede Globo.
Pontos políticos
E há uma "piada pronta" engatilhada, de péssimo gosto, na notícia de que o dono de uma pizzaria estaria envolvido. Mas em pizza este assunto não poderá acabar, ou o Enem – peça importante na estratégia do MEC para aperfeiçoar o ensino médio e o acesso ao ensino superior – ficará desmoralizado. E com ele, o próprio Ministério.
A quem interessa?
A pergunta que se deve fazer agora, como nos romances policiais, é: "A quem interessa esta situação?"
As declarações feitas à rádio Eldorado pelo ex-ministro da Educação, Paulo Renato Souza, que possivelmente deseja recuperar esta pasta se José Serra for eleito presidente, são, pelo menos, desrespeitosas. Paulo Renato parece comemorar, nas entrelinhas, o que ele chama de "inexperiência", mas talvez quisesse falar, sem eufemismos, em "incompetência" da atual gestão do MEC. É evidente a intenção de ganhar pontos políticos no momento em que a disputa eleitoral começa a se intensificar.
Redobrar a segurança
Outras perguntas passam pela cabeça dos leitores com espírito detetivesco:
** Quem quisesse prejudicar politicamente o MEC teria aguardado a hora do exame e, fazendo chegar a qualquer meio de comunicação a notícia do roubo das provas, gerar tumulto muitíssimo maior. Por que não o fez?
** Quem quisesse ganhar dinheiro com o roubo da prova do Enem deveria ter procurado, não um meio de comunicação, mas pessoas físicas que quisessem pagar pelo gabarito. Por que não o fez?
** Quem quisesse, no Estadão ou na Folha, um autêntico furo jornalístico, poderia ter fotografado ou filmado os criminosos, como aliás tem sido prática constante do jornalismo brasileiro. Por que não o fez?
O MEC tem agora várias frentes de batalha. Garantir a adesão das instituições universitárias que estavam apostando no Enem como confiável instrumento de seleção. Preparar o novo exame e aplicá-lo com redobrada segurança. Identificar em que momento do processo houve falha.
Não menos urgente, porém, contando com a Polícia Federal, é descobrir os criminosos. Somente os culpados (e seus cúmplices...) podem completar a ligação.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Há questões ligadas ao sigilo, como explicou Eugênio Bucci. Há questões profissionais e éticas, como explicou Luiz Weis. Há também suposições de ordem política, conforme Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim.
A jornalista Renata Cafardo contou em seu blog detalhes do encontro com os criminosos, a sua consulta ao MEC e a decisão do ministro da Educação, Fernando Haddad, pelo cancelamento do exame que iria se realizar no fim de semana seguinte. Logo depois do episódio, Renata recebeu ameaças anônimas por telefone, conforme reportagem da Rede Globo.
Pontos políticos
E há uma "piada pronta" engatilhada, de péssimo gosto, na notícia de que o dono de uma pizzaria estaria envolvido. Mas em pizza este assunto não poderá acabar, ou o Enem – peça importante na estratégia do MEC para aperfeiçoar o ensino médio e o acesso ao ensino superior – ficará desmoralizado. E com ele, o próprio Ministério.
A quem interessa?
A pergunta que se deve fazer agora, como nos romances policiais, é: "A quem interessa esta situação?"
As declarações feitas à rádio Eldorado pelo ex-ministro da Educação, Paulo Renato Souza, que possivelmente deseja recuperar esta pasta se José Serra for eleito presidente, são, pelo menos, desrespeitosas. Paulo Renato parece comemorar, nas entrelinhas, o que ele chama de "inexperiência", mas talvez quisesse falar, sem eufemismos, em "incompetência" da atual gestão do MEC. É evidente a intenção de ganhar pontos políticos no momento em que a disputa eleitoral começa a se intensificar.
Redobrar a segurança
Outras perguntas passam pela cabeça dos leitores com espírito detetivesco:
** Quem quisesse prejudicar politicamente o MEC teria aguardado a hora do exame e, fazendo chegar a qualquer meio de comunicação a notícia do roubo das provas, gerar tumulto muitíssimo maior. Por que não o fez?
** Quem quisesse ganhar dinheiro com o roubo da prova do Enem deveria ter procurado, não um meio de comunicação, mas pessoas físicas que quisessem pagar pelo gabarito. Por que não o fez?
** Quem quisesse, no Estadão ou na Folha, um autêntico furo jornalístico, poderia ter fotografado ou filmado os criminosos, como aliás tem sido prática constante do jornalismo brasileiro. Por que não o fez?
O MEC tem agora várias frentes de batalha. Garantir a adesão das instituições universitárias que estavam apostando no Enem como confiável instrumento de seleção. Preparar o novo exame e aplicá-lo com redobrada segurança. Identificar em que momento do processo houve falha.
Não menos urgente, porém, contando com a Polícia Federal, é descobrir os criminosos. Somente os culpados (e seus cúmplices...) podem completar a ligação.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Só não vê quem não quer
Nas eleições presidenciais brasileiras de 2006 parece ter havido consenso em relação à importância da internet nas muitas avaliações sobre o papel da mídia. O ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (INTI), professor Sérgio Amadeu, por exemplo, afirmou:
"O que ocorreu, em 2006, na relação entre internet e a política eleitoral? Os partidos políticos, boa parcela dos formadores de opinião e os cidadãos politicamente ativos e conectados criaram uma série de redes de disseminação de mensagens políticas por diversos meios virtualizados, principalmente sites de relacionamento, blogs, videoblogs e listas de discussão. Estas redes articularam simpatizantes e foram um meio extremamente veloz de respostas à mídia de massas e de disseminação de versões que logo migravam para o cotidiano presencial. Intensos debates foram travados nos sites de relacionamento e milhares de listas de discussão foram politizadas no cenário de 2006, pois repercutiam os embates trazidos de outros pólos do ciberespaço" (in Venício A. de Lima, org. A mídia nas eleições de 2006; Ed. Fund. Perseu Abramo; 2007; p. 179).
Depois de 2006, veio o processo eleitoral nos Estados Unidos que culminou com a eleição do primeiro presidente negro de sua história. Barack Obama se utilizou largamente da internet, não só para arrecadação de fundos, mas também para a organização de voluntários e a mobilização de novos eleitores, sobretudo jovens. Sua campanha passou a ser vista como uma espécie de turning point em relação à utilização da web na política, inclusive no Brasil, independente das peculiaridades do sistema eleitoral americano e, claro, das imensas diferenças entre as nossas sociedades.
DataSenado e Vox Populi
Um ano antes das eleições presidenciais de 2010, duas pesquisas confirmam enfaticamente o crescimento indiscutível do papel e da importância da internet no processo eleitoral brasileiro.
O DataSenado divulgou, dia 2/10, uma pesquisa nacional que ouviu em setembro, por telefone, 1.088 eleitores, distribuídos pelas 27 capitais, com margem de erro de 3% para mais e para menos (ver aqui o relatório completo).
Os resultados (ver quadro abaixo) revelam que a internet (19%) já é o segundo meio de comunicação mais usado pelo eleitor brasileiro para informar-se sobre política, atrás apenas da TV (67%). Jornais e revistas aparecem em terceiro lugar, com 11% e o rádio é preferido por apenas 4% dos entrevistados. Além disso, quase metade dos eleitores (46%) acredita que a principal vantagem da internet nas eleições será a troca de informações e idéias. A possibilidade de facilitar a comunicação entre candidatos e eleitores aparece em segundo lugar, com 28%. Os entrevistados que disseram usar a internet diariamente somaram 58%; 78% acessam sites de notícias e 53% participam de alguma rede social, como Orkut ou Twitter.
A Vox Populi, por outro lado, por intermédio de seu presidente Marcos Coimbra, divulga em artigo publicado em dia 4/10 os resultados de pesquisa – também realizada em setembro – nas oito maiores regiões metropolitanas e no Distrito Federal, mostrando que a proporção de eleitores que usam a internet para se informar sobre política já chega a 36% (ver aqui). Informa
Coimbra:
"Quase dois terços dessas pessoas se informam exclusivamente em sites de notícias e blogs jornalísticos, enquanto que 7% utilizam somente as redes sociais, como Orkut, Facebook e Twitter com essa finalidade. Os 29% restantes combinam as duas possibilidades. São eleitores que acessam a rede com muita intensidade: cerca de 70% dos que procuram nela essas informações dizem que navegam `todo dia ou quase todo dia´ com esse intuito."
Lições para todos nós
O que os dados mostram – e isso não constitui mais qualquer surpresa – é uma nova realidade da mídia no país. O presidente da Vox Populi comenta:
"Como essas proporções [daqueles que se informam pela internet] só sobem ano a ano, é fácil perceber quão diferente vai ficando nossa sociedade política com o passar do tempo. A cada eleição, a internet aumenta de importância, como vimos já em 2008 nas eleições de muitas capitais, onde foi um elemento decisivo do processo de ascensão e queda de diversos candidatos.
Em 2010, todo mundo espera que seja ainda mais relevante."
A grande mídia tradicional, por óbvio, continua relevante, mas não tem mais nem de longe a importância na formação da opinião pública que a ela se atribuiu em passado recente. Nos processos eleitorais, sobretudo, essa importância deve ser totalmente reavaliada. Se compararmos a sociedade brasileira que fez "a primeira eleição presidencial moderna em 1989" com a sociedade em que vivemos hoje, não há como ignorar a imensidão das mudanças ocorridas nas duas últimas décadas. Só não vê quem não quer.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
"O que ocorreu, em 2006, na relação entre internet e a política eleitoral? Os partidos políticos, boa parcela dos formadores de opinião e os cidadãos politicamente ativos e conectados criaram uma série de redes de disseminação de mensagens políticas por diversos meios virtualizados, principalmente sites de relacionamento, blogs, videoblogs e listas de discussão. Estas redes articularam simpatizantes e foram um meio extremamente veloz de respostas à mídia de massas e de disseminação de versões que logo migravam para o cotidiano presencial. Intensos debates foram travados nos sites de relacionamento e milhares de listas de discussão foram politizadas no cenário de 2006, pois repercutiam os embates trazidos de outros pólos do ciberespaço" (in Venício A. de Lima, org. A mídia nas eleições de 2006; Ed. Fund. Perseu Abramo; 2007; p. 179).
Depois de 2006, veio o processo eleitoral nos Estados Unidos que culminou com a eleição do primeiro presidente negro de sua história. Barack Obama se utilizou largamente da internet, não só para arrecadação de fundos, mas também para a organização de voluntários e a mobilização de novos eleitores, sobretudo jovens. Sua campanha passou a ser vista como uma espécie de turning point em relação à utilização da web na política, inclusive no Brasil, independente das peculiaridades do sistema eleitoral americano e, claro, das imensas diferenças entre as nossas sociedades.
DataSenado e Vox Populi
Um ano antes das eleições presidenciais de 2010, duas pesquisas confirmam enfaticamente o crescimento indiscutível do papel e da importância da internet no processo eleitoral brasileiro.
O DataSenado divulgou, dia 2/10, uma pesquisa nacional que ouviu em setembro, por telefone, 1.088 eleitores, distribuídos pelas 27 capitais, com margem de erro de 3% para mais e para menos (ver aqui o relatório completo).
Os resultados (ver quadro abaixo) revelam que a internet (19%) já é o segundo meio de comunicação mais usado pelo eleitor brasileiro para informar-se sobre política, atrás apenas da TV (67%). Jornais e revistas aparecem em terceiro lugar, com 11% e o rádio é preferido por apenas 4% dos entrevistados. Além disso, quase metade dos eleitores (46%) acredita que a principal vantagem da internet nas eleições será a troca de informações e idéias. A possibilidade de facilitar a comunicação entre candidatos e eleitores aparece em segundo lugar, com 28%. Os entrevistados que disseram usar a internet diariamente somaram 58%; 78% acessam sites de notícias e 53% participam de alguma rede social, como Orkut ou Twitter.
A Vox Populi, por outro lado, por intermédio de seu presidente Marcos Coimbra, divulga em artigo publicado em dia 4/10 os resultados de pesquisa – também realizada em setembro – nas oito maiores regiões metropolitanas e no Distrito Federal, mostrando que a proporção de eleitores que usam a internet para se informar sobre política já chega a 36% (ver aqui). Informa
Coimbra:
"Quase dois terços dessas pessoas se informam exclusivamente em sites de notícias e blogs jornalísticos, enquanto que 7% utilizam somente as redes sociais, como Orkut, Facebook e Twitter com essa finalidade. Os 29% restantes combinam as duas possibilidades. São eleitores que acessam a rede com muita intensidade: cerca de 70% dos que procuram nela essas informações dizem que navegam `todo dia ou quase todo dia´ com esse intuito."
Lições para todos nós
O que os dados mostram – e isso não constitui mais qualquer surpresa – é uma nova realidade da mídia no país. O presidente da Vox Populi comenta:
"Como essas proporções [daqueles que se informam pela internet] só sobem ano a ano, é fácil perceber quão diferente vai ficando nossa sociedade política com o passar do tempo. A cada eleição, a internet aumenta de importância, como vimos já em 2008 nas eleições de muitas capitais, onde foi um elemento decisivo do processo de ascensão e queda de diversos candidatos.
Em 2010, todo mundo espera que seja ainda mais relevante."
A grande mídia tradicional, por óbvio, continua relevante, mas não tem mais nem de longe a importância na formação da opinião pública que a ela se atribuiu em passado recente. Nos processos eleitorais, sobretudo, essa importância deve ser totalmente reavaliada. Se compararmos a sociedade brasileira que fez "a primeira eleição presidencial moderna em 1989" com a sociedade em que vivemos hoje, não há como ignorar a imensidão das mudanças ocorridas nas duas últimas décadas. Só não vê quem não quer.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Paulo Rubem promove audiência quinta-feira sobre Vale-cultura no Rio de Janeiro
Nesta quinta-feira (8/10) será realizada a 4ª Audiência Pública sobre o Vale- Cultura. Desta vez, acontece no Rio de Janeiro. O evento ocorrerá às 16h, no Salão Portinari da Representação Regional do Ministerio da Cultura, localizado no Palácio Gustavo Capanema, Rua da Imprensa, nº 16, 2º andar. Esta é a 4ª audiência pública que irá subsidiar o relator do projeto na Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE).
Paulo Rubem explica que a audiência tem como objetivo central apresentar o PL n° 5.798/2009 e proporcionar o debate entre os poderes executivo e legislativo, artistas, produtores culturais e trabalhadores. A série de audiências públicas já foram realizadas em Recife (PE), São Luis (MA) e em Canela (RS) acontece hoje, dia 6/10.
O evento contará com a presença do representante do Ministério da Cultura, Odair Rocha; do presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, deputado Alessandro Molon (PT-RJ); da atriz Cristina Pereira; da atriz e diretora Bia Lessa ; e do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ).
O Vale-Cultura é a primeira política governamental voltada para o consumo cultural e possibilitará que empresas disponibilizem, mensalmente, um crédito de R$ 50,00 aos trabalhadores para que esses possam ter acesso aos bens e serviços culturais. O Governo Federal concederá renúncia fiscal de parte do valor dispendido para as empresas que aderirem à iniciativa, que também terá contrapartida do trabalhador, levando em consideração o orçamento familiar do mesmo.
Estima-se que cerca de 12 milhões de brasileiros poderão ser beneficiados pelo Vale-Cultura, injetando recursos na ordem de 600 milhões de reais por mês ou 7,2 bilhões de reais por ano na economia da cultura.
Com o Vale-Cultura, os trabalhadores poderão adquirir ingressos de cinema, teatro, museu, shows, além de livros, CDs e DVDs, entre outros produtos culturais.
Tramitação – O projeto de lei está sendo analisado simultaneamente em quatro Comissões da Câmara dos Deputados: Constituição e Justiça e de Cidadania (CCCJ), Educação e Cultura (CEC), Finanças e Tributação (CFT) e de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP). O PL tramita até 10 de outubro, em regime de urgência. Saiba mais sobre Vale-Cultura: blogs.cultura.gov.br/valecultura.
Fonte: www.paulorubem.com.br - Andréa.
Paulo Rubem explica que a audiência tem como objetivo central apresentar o PL n° 5.798/2009 e proporcionar o debate entre os poderes executivo e legislativo, artistas, produtores culturais e trabalhadores. A série de audiências públicas já foram realizadas em Recife (PE), São Luis (MA) e em Canela (RS) acontece hoje, dia 6/10.
O evento contará com a presença do representante do Ministério da Cultura, Odair Rocha; do presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, deputado Alessandro Molon (PT-RJ); da atriz Cristina Pereira; da atriz e diretora Bia Lessa ; e do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ).
O Vale-Cultura é a primeira política governamental voltada para o consumo cultural e possibilitará que empresas disponibilizem, mensalmente, um crédito de R$ 50,00 aos trabalhadores para que esses possam ter acesso aos bens e serviços culturais. O Governo Federal concederá renúncia fiscal de parte do valor dispendido para as empresas que aderirem à iniciativa, que também terá contrapartida do trabalhador, levando em consideração o orçamento familiar do mesmo.
Estima-se que cerca de 12 milhões de brasileiros poderão ser beneficiados pelo Vale-Cultura, injetando recursos na ordem de 600 milhões de reais por mês ou 7,2 bilhões de reais por ano na economia da cultura.
Com o Vale-Cultura, os trabalhadores poderão adquirir ingressos de cinema, teatro, museu, shows, além de livros, CDs e DVDs, entre outros produtos culturais.
Tramitação – O projeto de lei está sendo analisado simultaneamente em quatro Comissões da Câmara dos Deputados: Constituição e Justiça e de Cidadania (CCCJ), Educação e Cultura (CEC), Finanças e Tributação (CFT) e de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP). O PL tramita até 10 de outubro, em regime de urgência. Saiba mais sobre Vale-Cultura: blogs.cultura.gov.br/valecultura.
Fonte: www.paulorubem.com.br - Andréa.
Federação de Jornalistas mobiliza pela aprovação da PEC do diploma na Comissão de Constituição da Câmara
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 386/09 deverá ser votada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, dia 7 de outubro. A diretoria da Fenaj e o Grupo de Trabalho da Coordenação da Campanha em Defesa da Profissão e do Diploma pedem empenho dos apoiadores do movimento para sensibilizar os membros da CCJC pela aprovação da proposta.
A Fenaj solicita que todos divulguem e encaminhem aos seus mailings esta mensagem de mobilização, para que os jornalistas e apoiadores do país inteiro participem desta sensibilização nacional em defesa da profissão. “Todos à luta para resgatar a exigência da formação específica em graduação para o exercício do Jornalismo”, disse Valci Zuculoto, da diretoria de Educação da Fenaj, do grupo de trabalho da Coordenação Nacional da Campanha.
Fonte: www.paulorubem.com.br - Andréa.
A Fenaj solicita que todos divulguem e encaminhem aos seus mailings esta mensagem de mobilização, para que os jornalistas e apoiadores do país inteiro participem desta sensibilização nacional em defesa da profissão. “Todos à luta para resgatar a exigência da formação específica em graduação para o exercício do Jornalismo”, disse Valci Zuculoto, da diretoria de Educação da Fenaj, do grupo de trabalho da Coordenação Nacional da Campanha.
Fonte: www.paulorubem.com.br - Andréa.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Os traidores e os heróis
"E, agora, José?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou..."
E, agora, João, Antônio, Joaquim, Maria e, agora, Luiz? O imortal poema de Carlos Drummond de Andrade é o mais perfeito lamento do day after, confronto com a realidade, cantochão pós-euforia. Aplica-se perfeitamente ao vazio que se seguiu à vibração da sexta-feira (2/10) quando foi anunciada a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016.
Depois do carnaval em Copenhagen, a ressaca inevitável – trabalho insano, responsabilidades, dificuldades, cobranças, disputas, cobiça, solidão, silêncio. Serão sete longos anos de muito sacrifício. Dois mil, quinhentos e cinqüenta e cinco dias de dedicação integral.
A Cidade Maravilhosa, merecidamente premiada, terá desafios extras: grande parte das obras de infra-estrutura terão que ficar prontas dois anos antes, para a abertura da Copa do Mundo. O Mundial de Futebol não pode ser inaugurado nem centralizado num grande canteiro de obras
inconclusas.
Hoje se inicia a contagem regressiva para 2014-16 e, sendo assim, é preciso registrar que o oba-oba da mídia foi desmedido. Impróprio. Evidencia-se, mais uma vez, como na esfera esportiva nossos jornalistas obedecem a códigos especiais e não se avexam em fazer parceria com marqueteiros, publicitários, cartolas e afins. Esqueceram novamente o compromisso de advertir, alertar para os perigos, ligar os alarmes. Preferem jogar para a galeria e as arquibancadas.
Ordem truncada
Dos vinte grandes nomes e "nomões" do nosso jornalismo apenas dois assumiram o seu papel de críticos antes da decisão do COI: Juca Kfouri, da Folha de S.Paulo e rádio CBN e Janio de Freitas, colunista político da Folha de S.Paulo. São de outro planeta? Não. Diferenciam-se porque não esquecem o indispensável dever crítico, têm presente o compromisso de duvidar.
Não há em nossa imprensa quem desconheça o sistema de vasos por onde escoa parte das verbas dos projetos grandiosos nem há quem ignore o pântano sobre o qual está construído o nosso esporte. Mas as coisas no Brasil saem sempre truncadas: os céticos são denunciados como traidores da pátria e os que fazem a festa passam por abnegados heróis.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou..."
E, agora, João, Antônio, Joaquim, Maria e, agora, Luiz? O imortal poema de Carlos Drummond de Andrade é o mais perfeito lamento do day after, confronto com a realidade, cantochão pós-euforia. Aplica-se perfeitamente ao vazio que se seguiu à vibração da sexta-feira (2/10) quando foi anunciada a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016.
Depois do carnaval em Copenhagen, a ressaca inevitável – trabalho insano, responsabilidades, dificuldades, cobranças, disputas, cobiça, solidão, silêncio. Serão sete longos anos de muito sacrifício. Dois mil, quinhentos e cinqüenta e cinco dias de dedicação integral.
A Cidade Maravilhosa, merecidamente premiada, terá desafios extras: grande parte das obras de infra-estrutura terão que ficar prontas dois anos antes, para a abertura da Copa do Mundo. O Mundial de Futebol não pode ser inaugurado nem centralizado num grande canteiro de obras
inconclusas.
Hoje se inicia a contagem regressiva para 2014-16 e, sendo assim, é preciso registrar que o oba-oba da mídia foi desmedido. Impróprio. Evidencia-se, mais uma vez, como na esfera esportiva nossos jornalistas obedecem a códigos especiais e não se avexam em fazer parceria com marqueteiros, publicitários, cartolas e afins. Esqueceram novamente o compromisso de advertir, alertar para os perigos, ligar os alarmes. Preferem jogar para a galeria e as arquibancadas.
Ordem truncada
Dos vinte grandes nomes e "nomões" do nosso jornalismo apenas dois assumiram o seu papel de críticos antes da decisão do COI: Juca Kfouri, da Folha de S.Paulo e rádio CBN e Janio de Freitas, colunista político da Folha de S.Paulo. São de outro planeta? Não. Diferenciam-se porque não esquecem o indispensável dever crítico, têm presente o compromisso de duvidar.
Não há em nossa imprensa quem desconheça o sistema de vasos por onde escoa parte das verbas dos projetos grandiosos nem há quem ignore o pântano sobre o qual está construído o nosso esporte. Mas as coisas no Brasil saem sempre truncadas: os céticos são denunciados como traidores da pátria e os que fazem a festa passam por abnegados heróis.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
A realidade olímpica
Comentário para o programa radiofônico do OI, 5/10/2009
A imprensa brasileira respondeu com uma onda de ufanismo à notícia da escolha, pelo Comitê Olímpico Internacional, do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.
A revista Veja inseriu entre suas páginas, sempre amargas quando trata do Brasil contemporâneo, uma reportagem especial – recheada de anúncios, é claro – na qual saúda a conquista como o "corolário da força de uma economia estável e de uma nação politicamente pacificada".
Seria o mesmo Brasil das últimas semanas, que, segundo a revista, anda atacado de sonhos imperialistas e megalomaníacos, ameaçado de se transformar em uma república socialista por conta da estratégia de exploração das reservas do pré-sal?
Os jornais não ficaram atrás. Embarcaram da mesma forma no delírio nacionalista, com muita razão, porque a conquista é importante. Mas, como depois de toda festa, chegaram ao final da semana tendo que encarar a realidade: muitas instituições brasileiras precisam ser reinventadas para encarar o desafio de planejar e realizar com um mínimo de eficiência e transparência o maior evento esportivo do planeta, apenas dois anos após ter que sediar a Copa do Mundo de Futebol.
Um país
Repórteres e analistas se concentraram em destrinchar os problemas que costumam transformar o Rio de Janeiro de "cidade maravilhosa" em túmulo da civilização. E dá-lhe infográfico sobre obras de instalações esportivas e infra-estrutura de hotelaria e transporte!
No meio de tudo, algum espaço para o ponto central: como resgatar para o controle público as vastas áreas da cidade sob domínio dos bandos criminosos?
Os jornais destacam na segunda-feira (5/10) o fato de que o Brasil aparece no novo relatório do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU como tendo apresentado melhora nos seus indicadores. Mas ainda somos uma das dez nações com as maiores desigualdades sociais do mundo.
Alguns analistas citados pela imprensa dizem que a ação necessária para realizar as Olimpíadas pode produzir uma transformação radical no Rio de Janeiro. Mas existe ainda um Brasil inteiro para ser reformado.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
A imprensa brasileira respondeu com uma onda de ufanismo à notícia da escolha, pelo Comitê Olímpico Internacional, do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.
A revista Veja inseriu entre suas páginas, sempre amargas quando trata do Brasil contemporâneo, uma reportagem especial – recheada de anúncios, é claro – na qual saúda a conquista como o "corolário da força de uma economia estável e de uma nação politicamente pacificada".
Seria o mesmo Brasil das últimas semanas, que, segundo a revista, anda atacado de sonhos imperialistas e megalomaníacos, ameaçado de se transformar em uma república socialista por conta da estratégia de exploração das reservas do pré-sal?
Os jornais não ficaram atrás. Embarcaram da mesma forma no delírio nacionalista, com muita razão, porque a conquista é importante. Mas, como depois de toda festa, chegaram ao final da semana tendo que encarar a realidade: muitas instituições brasileiras precisam ser reinventadas para encarar o desafio de planejar e realizar com um mínimo de eficiência e transparência o maior evento esportivo do planeta, apenas dois anos após ter que sediar a Copa do Mundo de Futebol.
Um país
Repórteres e analistas se concentraram em destrinchar os problemas que costumam transformar o Rio de Janeiro de "cidade maravilhosa" em túmulo da civilização. E dá-lhe infográfico sobre obras de instalações esportivas e infra-estrutura de hotelaria e transporte!
No meio de tudo, algum espaço para o ponto central: como resgatar para o controle público as vastas áreas da cidade sob domínio dos bandos criminosos?
Os jornais destacam na segunda-feira (5/10) o fato de que o Brasil aparece no novo relatório do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU como tendo apresentado melhora nos seus indicadores. Mas ainda somos uma das dez nações com as maiores desigualdades sociais do mundo.
Alguns analistas citados pela imprensa dizem que a ação necessária para realizar as Olimpíadas pode produzir uma transformação radical no Rio de Janeiro. Mas existe ainda um Brasil inteiro para ser reformado.
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Tem curso de jornalismo em todo lugar
Logo depois da sessão do Supremo Tribunal Federal que extinguiu a obrigatoriedade do diploma, uma das mais correntes previsões era de que o mercado de ensino de Jornalismo seria altamente prejudicado com a decisão. Instituições fechariam seus cursos, escolas deixariam de existir, já que – para entrar no mercado de trabalho – o diploma tornara-se dispensável.
Fiz questão de argumentar que tão difícil quanto abrir um curso é fechá-lo, e que nenhuma instituição de ensino considera essa uma boa saída, pois afeta a sua imagem, causa constrangimento e dissemina uma sensação de fracasso escolar. Afinal, se você está abrindo um curso, está expandindo. Encerrar atividades é justamente o contrário.
Considero ainda que os alunos que buscam os cursos de Jornalismo não o fazem, na sua maioria, para atender a uma questão burocrática para sua habilitação. Isto é, não estudam por conta do diploma, mas procuram caminhos para a sua profissionalidade, para o seu ingresso no mercado de trabalho. Uma demonstração desse comportamento padrão está ao lado dos cursos de Jornalismo, nos de Publicidade e Propaganda, carreira que não exige diploma para atuação profissional, mas que é uma das mais procuradas em vestibulares e processos seletivos.
Mas é claro que a decisão do STF provocou solavancos no mercado de ensino de Jornalismo.
Fechando as portas
Nem mesmo o Instituto de Pesquisas em Educação Anísio Teixeira, o Inep, sabe ao certo quantos cursos de Jornalismo existem no Brasil. Os dados são conflitantes entre os diversos órgãos ligados ao Ministério da Educação. Por isso, é difícil estimar mesmo que tipo de impacto a decisão do STF terá sobre os cursos da área.
Informações já circulam pela internet de que duas instituições aproveitaram a ocasião para tomar decisões que já estavam no seu horizonte: fechar as portas de cursos com pouca procura.
Foi o caso da Universidade de Uberaba (Uniube), cuja turma que seria formada pelo vestibular de junho foi cancelada. A Facamp, por sua vez, encerrou o curso, argumentando que o final da exigência do diploma iria impor uma nova orientação aos cursos pelo país.
Até agora são essas as notícias sobre extinção de vagas nos cursos, bem aquém do vendaval apocalíptico que muitos alardearam. Mas olhando mais de perto, o que percebe são outros movimentos, alguns mais ruidosos, outros nem tanto, que apontavam justamente para o caminho oposto. Quer dizer, estão surgindo novas oportunidades no ensino de jornalismo. Não é o aparecimento de novos cursos superiores na área, mas o oferecimento de formação na área, para além dos meios convencionais de instrução formal. Há empresas dando cursos, entidades, e até mesmo coletivos de jornalistas investindo em cursos mais curtos e dirigidos.
Abrindo vagas
No sentido contrário do fechamento maciço que se propagou entre os cursos de Jornalismo, surgem iniciativas que merecem atenção. Os programas de trainee de alguns veículos jornalísticos brasileiros estão de vento em popa. Os cursos de formação na Editora Abril e nos jornais Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo continuam atraindo milhares de aspirantes a jornalistas, sempre projetando a imagem de que são cursos bem consolidados e altamente práticos. Os estudantes parecem buscar nessas iniciativas oportunidades de aprenderem o que não tiveram acesso em suas universidades. Isso é altamente questionável, mas os cursos das empresas são uma realidade já bem conhecida pela academia e pelo próprio mercado. Se eles "adestram focas" – como propaga do Estadão – ou não, é uma discussão posterior.
Recentemente, o Programa de Treinamento da Folha foi além do oferecimento de vagas, e lançou um livro que pretende ser uma espécie de manual para esta etapa de formação: Jornalismo Diário, de Ana Estela de Sousa Pinto, traz dicas importantes para os iniciantes, mas não consegue disfarçar o espírito que pauta o jornal quando se trata da formação de jornalistas. Praticamente ignora a academia e se apoia em fórmulas que parecem formatar os jovens jornalistas para o modo-Folha-de-ver-o-mundo.
Fora do Brasil, outros conglomerados também têm suas iniciativas de formação profissional, a BBC tem o seu college para reciclar seus repórteres e editores, e Reuters, um respeitado instituto de estudos em jornalismo.
Dado que me parece novo no contexto brasileiro é o surgimento de cursos dados por coletivos de profissionais, como a Escola de Comunicação, do portal Comunique-se, e a Escola Livre de Jornalismo, por exemplo. São cursos curtos e mais dirigidos, semelhantes a oficinas práticas, e notadamente voltados ao aperfeiçoamento de profissionais. Mas estudantes da área também se matriculam e ajudam a compor turmas inteiras. Há iniciativas, no entanto, que causam alarde por seu tom mercantilista e miraculoso: formar profissionais de sucesso em curso de 45 horas!
O mercado está tão movimentado em oportunidades que já existe um site que reúne informações sobre cursos e palestras sobre jornalismo. O internauta pode inclusive assinar gratuitamente uma newsletter semanal, que informa as principais novidades na área da formação.
E os estudantes?
Os aspirantes a jornalistas não podem se queixar da carência de possibilidades de formação. Os cursos superiores da área sempre são muito criticados pelo mercado, que alega que sua orientação é excessivamente teórica, e que os jovens profissionais chegam aos postos de trabalho sem o ritmo de produção esperado. Os cursos que abundam por aí não garantem isso, e há uma agravante: não há qualquer fiscalização ou controle de qualidade sobre essas palestras, minicursos ou oficinas. Diferente do que existe dentro do sistema formal de educação, via Inep e MEC. Nos cursos de pós-graduação – principalmente mestrados e doutorados –, a Capes exerce seu papel neste sentido.
Nos Estados Unidos, há indicativos que os cursos superiores vêm atraindo mais e mais estudantes. E lá, o diploma não é exigência para se atuar nas redações. Isso não significa que professores, profissionais e estudantes dêem menos atenção ao problema. Pelo contrário: Robert Niles, por exemplo, salienta oito coisas que os alunos deveriam exigir de suas escolas, e Suzanne Yada lidera um coletivo de estudantes de jornalismo que discute qualidade, conveniência e atualidade da formação ali oferecida.
Por aqui, movimentos de estudantes semelhantes seriam muito bem-vindos.
Um novo mercado de formação?
As diversas iniciativas de cursos que mencionei não chegam a configurar um novo mercado na área de formação profissional. Mas também não é o caso de ignorar esses movimentos, pois eles salientam demandas que nem sempre são supridas pelos cursos convencionais. Neste sentido, faculdades e universidades têm observado essas iniciativas, ora rechaçando preventivamente, ora buscando aproximações estratégicas.
Trata-se de concorrência? Nem sempre. Mas a presença desses novos players no mercado, associada a mudanças que se avizinham com novas diretrizes para os cursos e a não exigência do diploma, tudo isso, combinado, deve provocar alterações sensíveis na rota dos cursos de Jornalismo no país.
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Após decisão do STF, registros de jornalistas estão trancados nas DRTs
Passados cem dias da decisão que extinguiu a obrigatoriedade de diploma para obter registros profissionais de jornalistas, a papelada para expedição de novos documentos de habilitação acumula nas Delegacias Regionais do Trabalho, as DRTs. Isto é, ninguém no país tem conseguido tirar registro de jornalista em nenhuma parte. O Ministério do Trabalho instruiu as DRTs para que nenhum documento fosse expedido até que tivesse clareza sobre a decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Como o acórdão não foi ainda publicado no Diário da Justiça Eletrônico, o ministério não sabe como agir, que documentos exigir e quanto tempo isso deve levar. Foi tornado público apenas um resumo da ata da sessão (veja aqui), mas o acórdão completo, que traz os votos do relator e dos demais ministros ainda está engavetado em algum lugar da Suprema Corte brasileira. O entendimento generalizado que se tem é que caiu a necessidade do diploma, mas não a dos registros profissionais para atuar na área. Isso porque o Judiciário não soterrou toda a lei que regulamenta a profissão, mas apenas o seu inciso V do artigo 4º, justamente o trecho que torna obrigatório portar diploma de Jornalismo para conseguir a habilitação profissional.
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também não está expedindo suas carteiras funcionais, que servem como documentos de identidade pessoal e profissional em todo o país. Os estoques das carteiras simplesmente acabaram na sede, em Brasília. E a federação não solicitou à Casa da Moeda que imprimisse novos lotes, aguardando que o Ministério do Trabalho se pronuncie sobre como serão os registros a partir de agora. O ministro Carlos Luppi, no entanto, aguarda instruções da Advocacia Geral da União (AGU).
A obrigatoriedade do diploma de jornalismo caiu em 17 de junho passado, mas sua contestação começou em outubro de 2001. Da liminar expedida nessa época até hoje, nada mais nada menos que 14 mil pessoas conseguiram seus registros (até então chamados de "precários"), sem precisar de diploma...
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
Fiz questão de argumentar que tão difícil quanto abrir um curso é fechá-lo, e que nenhuma instituição de ensino considera essa uma boa saída, pois afeta a sua imagem, causa constrangimento e dissemina uma sensação de fracasso escolar. Afinal, se você está abrindo um curso, está expandindo. Encerrar atividades é justamente o contrário.
Considero ainda que os alunos que buscam os cursos de Jornalismo não o fazem, na sua maioria, para atender a uma questão burocrática para sua habilitação. Isto é, não estudam por conta do diploma, mas procuram caminhos para a sua profissionalidade, para o seu ingresso no mercado de trabalho. Uma demonstração desse comportamento padrão está ao lado dos cursos de Jornalismo, nos de Publicidade e Propaganda, carreira que não exige diploma para atuação profissional, mas que é uma das mais procuradas em vestibulares e processos seletivos.
Mas é claro que a decisão do STF provocou solavancos no mercado de ensino de Jornalismo.
Fechando as portas
Nem mesmo o Instituto de Pesquisas em Educação Anísio Teixeira, o Inep, sabe ao certo quantos cursos de Jornalismo existem no Brasil. Os dados são conflitantes entre os diversos órgãos ligados ao Ministério da Educação. Por isso, é difícil estimar mesmo que tipo de impacto a decisão do STF terá sobre os cursos da área.
Informações já circulam pela internet de que duas instituições aproveitaram a ocasião para tomar decisões que já estavam no seu horizonte: fechar as portas de cursos com pouca procura.
Foi o caso da Universidade de Uberaba (Uniube), cuja turma que seria formada pelo vestibular de junho foi cancelada. A Facamp, por sua vez, encerrou o curso, argumentando que o final da exigência do diploma iria impor uma nova orientação aos cursos pelo país.
Até agora são essas as notícias sobre extinção de vagas nos cursos, bem aquém do vendaval apocalíptico que muitos alardearam. Mas olhando mais de perto, o que percebe são outros movimentos, alguns mais ruidosos, outros nem tanto, que apontavam justamente para o caminho oposto. Quer dizer, estão surgindo novas oportunidades no ensino de jornalismo. Não é o aparecimento de novos cursos superiores na área, mas o oferecimento de formação na área, para além dos meios convencionais de instrução formal. Há empresas dando cursos, entidades, e até mesmo coletivos de jornalistas investindo em cursos mais curtos e dirigidos.
Abrindo vagas
No sentido contrário do fechamento maciço que se propagou entre os cursos de Jornalismo, surgem iniciativas que merecem atenção. Os programas de trainee de alguns veículos jornalísticos brasileiros estão de vento em popa. Os cursos de formação na Editora Abril e nos jornais Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo continuam atraindo milhares de aspirantes a jornalistas, sempre projetando a imagem de que são cursos bem consolidados e altamente práticos. Os estudantes parecem buscar nessas iniciativas oportunidades de aprenderem o que não tiveram acesso em suas universidades. Isso é altamente questionável, mas os cursos das empresas são uma realidade já bem conhecida pela academia e pelo próprio mercado. Se eles "adestram focas" – como propaga do Estadão – ou não, é uma discussão posterior.
Recentemente, o Programa de Treinamento da Folha foi além do oferecimento de vagas, e lançou um livro que pretende ser uma espécie de manual para esta etapa de formação: Jornalismo Diário, de Ana Estela de Sousa Pinto, traz dicas importantes para os iniciantes, mas não consegue disfarçar o espírito que pauta o jornal quando se trata da formação de jornalistas. Praticamente ignora a academia e se apoia em fórmulas que parecem formatar os jovens jornalistas para o modo-Folha-de-ver-o-mundo.
Fora do Brasil, outros conglomerados também têm suas iniciativas de formação profissional, a BBC tem o seu college para reciclar seus repórteres e editores, e Reuters, um respeitado instituto de estudos em jornalismo.
Dado que me parece novo no contexto brasileiro é o surgimento de cursos dados por coletivos de profissionais, como a Escola de Comunicação, do portal Comunique-se, e a Escola Livre de Jornalismo, por exemplo. São cursos curtos e mais dirigidos, semelhantes a oficinas práticas, e notadamente voltados ao aperfeiçoamento de profissionais. Mas estudantes da área também se matriculam e ajudam a compor turmas inteiras. Há iniciativas, no entanto, que causam alarde por seu tom mercantilista e miraculoso: formar profissionais de sucesso em curso de 45 horas!
O mercado está tão movimentado em oportunidades que já existe um site que reúne informações sobre cursos e palestras sobre jornalismo. O internauta pode inclusive assinar gratuitamente uma newsletter semanal, que informa as principais novidades na área da formação.
E os estudantes?
Os aspirantes a jornalistas não podem se queixar da carência de possibilidades de formação. Os cursos superiores da área sempre são muito criticados pelo mercado, que alega que sua orientação é excessivamente teórica, e que os jovens profissionais chegam aos postos de trabalho sem o ritmo de produção esperado. Os cursos que abundam por aí não garantem isso, e há uma agravante: não há qualquer fiscalização ou controle de qualidade sobre essas palestras, minicursos ou oficinas. Diferente do que existe dentro do sistema formal de educação, via Inep e MEC. Nos cursos de pós-graduação – principalmente mestrados e doutorados –, a Capes exerce seu papel neste sentido.
Nos Estados Unidos, há indicativos que os cursos superiores vêm atraindo mais e mais estudantes. E lá, o diploma não é exigência para se atuar nas redações. Isso não significa que professores, profissionais e estudantes dêem menos atenção ao problema. Pelo contrário: Robert Niles, por exemplo, salienta oito coisas que os alunos deveriam exigir de suas escolas, e Suzanne Yada lidera um coletivo de estudantes de jornalismo que discute qualidade, conveniência e atualidade da formação ali oferecida.
Por aqui, movimentos de estudantes semelhantes seriam muito bem-vindos.
Um novo mercado de formação?
As diversas iniciativas de cursos que mencionei não chegam a configurar um novo mercado na área de formação profissional. Mas também não é o caso de ignorar esses movimentos, pois eles salientam demandas que nem sempre são supridas pelos cursos convencionais. Neste sentido, faculdades e universidades têm observado essas iniciativas, ora rechaçando preventivamente, ora buscando aproximações estratégicas.
Trata-se de concorrência? Nem sempre. Mas a presença desses novos players no mercado, associada a mudanças que se avizinham com novas diretrizes para os cursos e a não exigência do diploma, tudo isso, combinado, deve provocar alterações sensíveis na rota dos cursos de Jornalismo no país.
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Após decisão do STF, registros de jornalistas estão trancados nas DRTs
Passados cem dias da decisão que extinguiu a obrigatoriedade de diploma para obter registros profissionais de jornalistas, a papelada para expedição de novos documentos de habilitação acumula nas Delegacias Regionais do Trabalho, as DRTs. Isto é, ninguém no país tem conseguido tirar registro de jornalista em nenhuma parte. O Ministério do Trabalho instruiu as DRTs para que nenhum documento fosse expedido até que tivesse clareza sobre a decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Como o acórdão não foi ainda publicado no Diário da Justiça Eletrônico, o ministério não sabe como agir, que documentos exigir e quanto tempo isso deve levar. Foi tornado público apenas um resumo da ata da sessão (veja aqui), mas o acórdão completo, que traz os votos do relator e dos demais ministros ainda está engavetado em algum lugar da Suprema Corte brasileira. O entendimento generalizado que se tem é que caiu a necessidade do diploma, mas não a dos registros profissionais para atuar na área. Isso porque o Judiciário não soterrou toda a lei que regulamenta a profissão, mas apenas o seu inciso V do artigo 4º, justamente o trecho que torna obrigatório portar diploma de Jornalismo para conseguir a habilitação profissional.
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também não está expedindo suas carteiras funcionais, que servem como documentos de identidade pessoal e profissional em todo o país. Os estoques das carteiras simplesmente acabaram na sede, em Brasília. E a federação não solicitou à Casa da Moeda que imprimisse novos lotes, aguardando que o Ministério do Trabalho se pronuncie sobre como serão os registros a partir de agora. O ministro Carlos Luppi, no entanto, aguarda instruções da Advocacia Geral da União (AGU).
A obrigatoriedade do diploma de jornalismo caiu em 17 de junho passado, mas sua contestação começou em outubro de 2001. Da liminar expedida nessa época até hoje, nada mais nada menos que 14 mil pessoas conseguiram seus registros (até então chamados de "precários"), sem precisar de diploma...
Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br
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